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Tremor nas Mãos

Antes dos trinta anos surge uma doença. A luta desesperada dele e da esposa em busca da cura. A perda da esperança. Sua volta à terra natal para reviver de modo diferente as experiências passadas e realizar seu último anseio: ser livre!



Capítulo 7 - Tremor nas Mãos

(Informação: Três ponto (...) entre parágrafos indicam que outros parágrafos foram retirados; no começo ou final de parágrafo indicam que textos foram retirados daquele parágrafo)



Ameaça de uma Doença

Numa tarde de quinta-feira, no começo de fevereiro de 1965, Joman procura fixar rapidamente um diamante de meio quilate para serrá-lo, a primeira etapa da lapidação, quando a pedra se desprende de sua mão e cai.

– Você tá com a mão doce? – pergunta Aristides ao lado, em tom de brincadeira, interrompendo o seu trabalho.

– Até parece...

Joman, um tanto sem graça, logo encontra a pedra e após certificar-se de que ela não sofreu dano, volta ao trabalho. E pensa em quantas vezes isto aconteceu nos quase doze anos de profissão – não mais do que cinco. Portanto, o que acaba de acontecer é um simples acidente. Sua mão sempre foi firme, mas assim mesmo ele redobra os cuidados e prossegue com o serviço.

... Contudo, na segunda-feira pela manhã outro diamante cai, logo no começo do trabalho.

– Que é isso Joman?... – indaga Aristides, com expressão de incredulidade. – Algum problema?

– Esquisito...

Antes de se abaixar para procurar a pedra, ele ergue a mão direita e observa. Tem a impressão de estar com um leve tremor. Depois ergue a esquerda, observa as duas, e a impressão parece confirmar-se. Lívido, arregala os olhos. O companheiro, que interrompeu o trabalho e o acompanha com o olhar, insiste:

– Algum problema?

– Ai! Ai! Ai! Estou achando, assim, que minhas mãos tremem... ou é impressão? Olha aqui...

...

Opiniões dos Médicos

No ambulatório do Hospital das Clínicas, onde já é conhecido pelos atendentes pela freqüência de suas consultas, é encaminhado a um clínico geral. Apreensivo, ele entra no consultório. O médico, depois de folhear o seu prontuário, colher a história do tremor, dos antecedentes pessoais e familiares, efetuar o exame físico e em especial das mãos, comenta, enquanto volta a folhear o prontuário: – Estou vendo aqui, pela anotação de um colega, que você sofre de hipocondria. Esse tremor pode ser mais uma manifestação dela.

– Não sabia, doutor. Que doença é esta?

– É um distúrbio psíquico que leva a pessoa sentir coisas físicas, como aquelas que você vinha tendo. Você está passando por alguma dificuldade no momento? Dificuldade no trabalho, na família, alguma preocupação maior, de qualquer natureza?

– Não, doutor. Estou, assim, vivendo os problemas normais da vida, quero dizer, até aparecer o tremor.

– Você tem certeza de que não existe mesmo ninguém na família que tenha ou já teve problema semelhante?

– Certeza, certeza, não, porque tenho uns parentes em Portugal, e não conheço, assim, nenhum deles.

O médico observa o seu semblante assustado, os músculos do rosto contraídos, pensa um pouco e retorna: – Vou te prescrever um calmante leve, até mesmo pra você dormir melhor, e encaminhá-lo a um especialista de glândulas e outro do sistema nervoso, um neurologista, para avaliações especializadas.

Nesse mesmo dia ele se lembra do seu tio Cândido, que morreu cerca de dez anos antes. Telefona para um primo, filho dele, que trabalha numa repartição pública, e fica sabendo que no início da doença apareceu um tremor. Essa notícia o deixa alarmado.

Ele viu o tio duas vezes. Na primeira, quando chegou a Belo Horizonte, ele estava adoentado; na segunda, achava-se em fase terminal. Lembra-se claramente da segunda visita, de poucos minutos: o tio estava cego, definhado, inválido, insano e gritava muito. Associa o seu caso ao dele e começa a imaginar que terá o mesmo fim. À beira do desespero, quase não dorme aquela noite, mesmo tomando o calmante.

...

Depois o médico faz o exame físico, testando várias partes do corpo. Por fim informa: – O exame neurológico está praticamente normal. – Antes de Joman completar uma respiração de alívio, ele continua: – Exceto, é claro, o tremor, e parece que tem uma diminuição da força nas mãos.

– O senhor acha que é, quero dizer, acha que é, assim, coisa séria, doutor Claudiano? – gagueja intensamente.

– Está cedo para dar uma resposta. Vou pedir vários exames.

...

Erguendo a cabeça, o médico tira os óculos, passa a palma da mão pelos cabelos, começando pela frente e terminando na nuca, olha-o, abre um sorriso e diz: – Meus parabéns! Você não tem nenhum problema de glândulas.

Ele desvia o olhar do médico, abaixa a cabeça, volta a levantá-la, agora com expressão de desapontamento. – Não tem nem um pouco, assim, quero dizer, de hipoglicemia, doutor?

– Não. A sua glicose é normalíssima – volta o médico, ainda sorridente.

Joman finge ficar alegre com a notícia, para agradar ao médico, coisa habitual nele. Por trás dessa aparência cresce a nuvem negra da doença do tio.

...

Quando ele entra na sala do neurologista, depois de fazer todos os exames pedidos, suas pernas estão bambas e a respiração é curta. O medo quanto aos resultados é enorme. Depois de olhar os papéis, chapas de raios X, gráficos, o Dr. Claudiano faz outras perguntas.

– Alguma mudança nos olhos, na visão?

– Não, acho que não, acho que está a mesma coisa.

– E na força das mãos, dos braços e das pernas, alguma alteração?

– A força? Sim... acho que está, assim, menos... – responde sem convicção.

...

Joman reúne energias e indaga: – Será... será que estou com alguma doença, assim, mais grave, doutor?

– Não tenho condições de afirmar isso, pelo menos por enquanto. O tremor, por si só, não significa grandes coisas. Pode ficar só no tremor, pelo resto da vida. Um tremor idiopático, isto é, de causa desconhecida. Pode até desaparecer com o tempo. Mas quando se junta com outros sinais e sintomas, como diminuição da força, problemas de visão... é isto que me preocupa no seu caso.

Nada é tão aterrador para um paciente quanto ouvir seu médico dizer que está preocupado. Joman desaba por dentro, perde a fala, tem a sensação de que vai desmaiar. Por uns segundos, talvez minutos, a voz do médico é um misto de eco e sons lentos, com lacunas.

– ...a gripe... encefalite... seu tio... esclerose... – ficam registrados em sua mente como palavras soltas.

Ao readquirir o equilíbrio, pergunta gaguejando: – Qual é mesmo a doença, doutor?

– Suspeito de tremor idiopático. Não descarto, embora seja uma possibilidade mais remota, de fase inicial de esclerose múltipla. Só com o tempo posso dar um diagnóstico definitivo.

– Essas doenças são, assim, difíceis de curar?

– Infelizmente, para o tremor idiopático, não temos tratamento algum. Para a esclerose múltipla, não temos tratamento específico, mas alguns medicamentos e certos cuidados podem trazer alguma melhora. Vou fazer uma prescrição e você deve vir aqui periodicamente para eu acompanhar o que acontece e firmar o diagnóstico.

Joman reúne o restinho de energia e faz uma pergunta cuja resposta teme: – Essa outra doença, doutor, esclerose? – o médico balança a cabeça – dura muito tempo?

– Pode durar anos, até vinte, trinta, cinqüenta...

– O senhor tem condições de dizer, assim, se pode durar menos?

– Pode. Mas não vamos ficar aqui pensando no pior. Vamos dar tempo ao tempo.

Para um indivíduo como ele, é difícil pensar no menos ruim.

– Doutor, o senhor acha que, vamos dizer, que pode ser uma doença que passa, quero dizer, de família?

– Você quer dizer, hereditária? – Joman balança a cabeça. – Alguns tremores podem ser hereditários, mas não temos evidência de que a esclerose múltipla seja.

Enquanto aguarda o médico fazer a prescrição, precisa se conter para não entrar em desespero. “O que vai ser de mim? Se for um tremor simples, não posso trabalhar. Se for a outra doença...” – não ousa terminar o pensamento.

... vai direto ao local de trabalho do primo, filho do tio falecido.

– O tio Cândido – começa –, quanto tempo, assim, durou a doença dele, você lembra?

– Menos de dois anos – responde o primo. Joman estremece com a informação.

– E você sabe, assim, qual que era a doença?

– O médico falou numa tal de esclerose múltipla.

Joman sente um calafrio, a cabeça fica subitamente vazia, a boca seca, a respiração torna-se ofegante – um medo aterrador toma conta dele.

...

... Ao chegar à rua já não tem forças para atravessá-la; senta-se no meio-fio e fica olhando um ponto indefinido do asfalto, com o semblante vazio e a respiração difícil. Atordoado, o mundo não existe mais dentro dele e ele não está no mundo de fora. O sol bate-lhe na pele e ele não sente o calor. Pessoas caminham em volta, movidas por uma força que não é a da vida. Carros passam em frente, mas não vão a lugar algum. Sem dentro, sem fora, sem calor, sem vida, sem destino – tudo lento, embaçado. Fica ali mais alguns minutos.

...

Ela procura o Dr. Claudiano, sem o conhecimento de Joman. Solícito, o médico responde a todas as suas perguntas, relata com pormenores a evolução dos dois quadros.

– O senhor está achando que é esclerose múltipla?

– Como eu disse, é a hipótese menos provável. Entretanto, ela é uma doença que na fase inicial pode apresentar sinais e sintomas tão discretos e variáveis que tornam o diagnóstico difícil, e leva muitas vezes o médico a conduzir o tratamento como se fosse outra doença. E pode acontecer o contrário: os indícios sugerem esclerose e o tempo mostra que o problema é outro. Vou observar a resposta do organismo dele à prescrição. – Após rápida pausa, completa: – E substituí o calmante por um sonífero para que ele durma melhor.

– O Joman disse que a doença do tio dele durou menos de dois anos e que ele morreu louco...

– Alguns casos podem mesmo ter uma evolução muito rápida, de meses apenas. Quanto à insanidade, pode ocorrer numa pequena porcentagem de casos, na fase final.

Cleide volta para casa abatida. Reconhece que está diante de um problema sério. O futuro da família ficou incerto de uma hora para a outra. Entretanto, nada comenta com o esposo.


Decisão Radical

Joman passa a maior parte do tempo em casa, andando de um lado para outro. Gradualmente instala-se uma silenciosa revolta contra Deus. “É este o prêmio que o Senhor me dá pela vida direita que sempre levei? Onde está a Sua justiça?”, pensa com freqüência cada vez maior.

Com o passar dos dias o tremor torna-se mais evidente, em particular quando executa movimento com os braços e mãos, até mesmo quando pega uma caneta para escrever, coisa que o constrange, se feita na presença de alguém.

...

Completados os trinta dias após a última consulta com o neurologista, ele retorna,como lhe foi recomendado. Está acompanhado de Cleide.

– Acho que estou piorando – diz ao médico, em tom de lamento.

– O que há de diferente?

Ele relata a dificuldade para tomar café, água ou qualquer líquido quando a vasilha está muito cheia. Dá informes confusos sobre a visão e a força. E completa, descrevendo a conversa que teve com o primo e o diagnóstico do seu tio Cândido.

O médico faz novo exame neurológico e informa: – Do meu ponto de vista não houve piora. Apenas o tremor tornou-se mais constante.

...

A despeito de continuar seguindo a prescrição, a doença não regride. Seu estado de espírito é cada vez mais precário, com a revolta e a tristeza se alternando. “Só um milagre me salva, só um milagre...”, pensa constantemente. Ora anda de um lado para outro dentro de casa e no quintal, ora deita-se encolhido na cama, onde permanece longos períodos.


Tentativas Desesperadas

Por seu lado, Cleide não desiste de buscar solução. Fica sabendo de uma mulher que, apesar de não ser médica, faz tratamento homeopático, e fala sobre o assunto com o marido.

“Quem sabe que o milagre vem com essa mulher?”, indaga a si mesmo, com uma ponta de esperança.

Vão à consulta. A mulher é direta e objetiva.

– Pára com esses remédios – ordena ela no final do relato – e toma umas pílulas que vou receitar.

– E a senhora acha, assim, que cura?

– Cura! – responde com convicção. – Em uma semana você vai estar muito melhor.

Joman se apega a essa esperança, deixa os remédios do neurologista e começa a tomar as minúsculas pílulas. Uma semana depois o seu quadro está inalterado. Decepcionado e aborrecido, suspende as pílulas e fica sem tomar remédio algum.

...

Cleide não entrega os pontos. Decide apelar para a fé religiosa.

– Querido, vamos pedir a graça de São Judas Tadeu? – convida ela um dia.

Embora seu pai tivesse todo aquele fervor religioso, ele próprio nunca se envolvera muito com religião. Nos últimos dias, a fé em Deus, que nunca foi lá grandes coisas, praticamente desapareceu.

– Ah, Cleide, bobagem – responde com desalento. – Se até Deus me abandonou, como é que um santo, quero dizer, um simples santo, vai me curar?

– Ôôô Joman, não fale isso de Deus... – sua voz não tem o tom de reprovação, mas de súplica. – E São Judas Tadeu é um santo forte para as causas impossíveis, você não sabe?

– Já ouvi falar – volta com desinteresse.

– Então, querido. Vamos lá, vamos tentar.

Ele fica indeciso. “Quem sabe é isto? Como não tenho muita fé, Deus não me ajuda.”Após breve pausa, volta a pensar: “Mas pode ser... pode ser que, tendo tanta coisa pra cuidar, Ele deixa algumas nas mãos dos santos... e os santos são menos exigentes”.

Cleide interrompe seus pensamentos: – Vamos, querido, vamos tentar!

– Então vamos – responde com a voz um pouco mais animada.

Na igreja, erguida em nome do santo ...

...

Em menos de uma semana, não vendo melhora, ele sai à rua para encontrar-se com um freguês que não aparece há muito tempo e que, certa feita, contou umas histórias de um homem que curava muita gente. No dia não deu importância ao caso, pois sempre desconfiou dos curandeiros. Entretanto, sua situação agora não é de se permitir pruridos éticos ou escrúpulos religiosos. Acha-se como um barco que está afundando: atraca em qualquer porto. Quer encontrar a cura, não importa de onde venha.

– Ele faz verdadeiros milagres – confirma o freguês, quando se encontram. – Já curou muita gente desenganada, e não cobra nada, nada!

Em casa ele conversa sobre o assunto com a esposa.

– Estou disposta a te seguir pra qualquer lugar, você sabe disso. Vamos tentar! Vamos tentar! – completa ela, com ânimo elevado.

...

Quatro dias depois, ele acorda com uma estranha sensação nos braços. Sai correndo à procura da mulher, que já se levantou.

– Cleide, Cleide, acho que estou indo! – diz, alarmado.

Ela responde aflita. – O que é, querido?

– Não é dor e nem dormência, é uma coisa esquisita que corre dentro dos braços, parece que é nos nervos. – Desesperado, implora: – São Judas, me salva!

A estranha sensação parece seguir o ritmo do tremor. Convencido de que a doença está se acelerando, lamenta: – Vai ver que piorei por causa daquele remédio do curandeiro. Que que eu tinha de ir lá?...

Tomado pela raiva, atira a garrafa com o restante do líquido no quintal, quebrando-a. Vai para a cama, deita-se encolhido como um feto. Não há mais nada que possa fazer.

...

"Não aceito, não aceito de jeito nenhum essa doença azarada!”, “Esse tal de Deus não existe, é uma invenção.”, “ Qual é o meu crime? Qual?”, “Eu só levei ferro na vida, e continuo, para aprender.”, “De que adiantou ser bom? Só aproveitaram de mim.” – são as coisas que mais repete.


Reviravolta na Vida

No terceiro mês de doença, numa manhã, ele está sentado na sala, num dos períodos de ruminação. Subitamente uma lembrança do passado desencadeia uma seqüência rápida, num turbilhão de imagens e sons.

– Ô Travessa!
– Ô Travessa “Ôpa Ôba”!
– Travessa “Ôpinha”!...
– A certidão de nascimento está errada.
– Não conta pra ninguém, hein?! Se contar eu te bato.
– Se ocê é home, travessa essa linha, Travessa!
– Correu de medo, cagou no dedo!
– Seu pai num travessa mata-burro, e ocê?
– Joman, vai buscar a opa do seu pai no guarda-roupa!
– Belma, vai lavar a opa do seu pai!
– Bebe o chá, senão apanha!
– Me empresta um dinheiro.
– Me dá...
– Você é um cara bonzinho.
– Gente legal que nem você é difícil.

Enquanto as imagens e os sons passam acelerados pela mente, o sentimento de revolta cresce. Chega a um nível tão alto que a mente silencia. Quando o pensamento volta, o foco é outro.

“Estou indo mesmo – recomeça –, vivi na merda, engoli cobras, sapos e lagartos. Fiz um monte de coisas que não queria fazer. Vivi encurralado pelos outros, de medo, puro medo. Vai tudo pra puta que o pariu! Vou viver a vida que não vivi, nem que seja só por uns meses” – decide. Em seguida berra com toda a força de seus pulmões:

–Vão todos para a puta que os pariiiiiiiiu!...

Ao ouvi-lo, Cleide, que se acha na cozinha, vai correndo para a sala. Ela jamais o viu sequer erguer a voz, que dirá soltar um palavrão, e no trajeto lembra-se do que o neurologista lhe disse, em particular, sobre a esclerose: algumas pessoas, poucas, enlouquecem no final da doença. Aflita e ofegante, ela ...

....

Aos poucos o semblante de revolta vai dando lugar a um meio sorriso de contentamento. “Fazer o que queria e não fiz... brigar... xingar... amar... enquanto a doença permitir. Depois, aí sim, dou o tiro e vou embora alegre.” Num arranco solta-se da esposa, dá um salto, põe-se de pé e grita: – Liberdade! Vou ser livre!... Liiiivre! – e continua, agora baixinho, andando de um lado para outro, ante o olhar atônito de Cleide: – Liiiivre, liiiivre, liiiivre, liiiivre.

Retorna aos pensamentos. “É isto! É isto! É isto que tenho de fazer... Não posso ir prisioneiro, não posso! A vida toda me perseguiram, e eu, o tempo todo, tentando escapar. Ah!...

...

Decide mesmo dar uma guinada na sua vida.

...

Vislumbra também o caminho, um caminho totalmente diferente daquele que trilhou. “Tenho de reviver tudo o que for possível, nos poucos meses que me restam, da maneira que quis e não consegui! Vou à forra com os que abusaram da minha fraqueza. Vou cobrar dos que me exploraram e me deram prejuízos. Vou desafiar os que me humilharam. Vou confessar os desejos abafados. Vou xingar quando tiver vontade. Vou declarar aquele amor.” Pensa em tudo isso, e muito mais, ... Está disposto a se transformar num outro homem, o homem que deveria ter sido sempre.

...

Subitamente ele pára, medita, e em poucos segundos elabora um plano: “Vou voltar a Tumiritinga e reviver tudo o que for possível, mas de outro jeito. Não tenho nada a perder. O pior que pode acontecer é alguém me matar, mas isso significa apenas antecipar em dias ou meses...” Olha para fora, através da janela, com olhar distante, e constata: “Quanta coisa pendente eu tenho na minha vida...” A seguir toma uma decisão: “Vou seguir uma ordem, vou começar pela infância”.

...

... Ele acha que a causa dos seus problemas econômicos e financeiros são os outros. Os prejuízos que teve foram culpa deles. Imagina-se vítima, assim como sua família.

...

Rumo ao Passado

Nos dias subseqüentes ele toma iniciativas como alguém que se despede da vida. Desfaz-se de seu maquinário de lapidação e do acordo sobre as despesas da sala com Aristides. Vende o carro. Numa manhã sai de casa resoluto, pisando firme, para encontrar-se com alguns devedores, pessoas às quais emprestou dinheiro ou das quais pagou dívidas por ter sido fiador. “Tenho de acabar com essa mania de falar macio com os outros, de ficar dando voltas. Até parece que estou pedindo desculpas pelo simples fato de estar falando. Onde já se viu isto?”, diz para si mesmo. Está disposto a ser enérgico nas cobranças, falar firme, como vem falando com a esposa.

...

... Entende que a heróica decisão de tornar-se livre não é suficiente para libertá-lo. Expressar-se com liberdade para uma pessoa que ele sabe que o ama, como a esposa, ou para quem é seu amigo, como o Aristides, é uma coisa. Falar com os de fora, é outra, bem diferente. Imagina, então, que sua volta a Tumiritinga é mais importante do que lhe pareceu, porque ao reviver fatos que o oprimiram, aí sim, talvez fique livre do medo, talvez alcance a liberdade. “Quero ter o gostinho dela antes de ir...”

...

Depois de prometer à esposa que vai dar notícias com regularidade, Joman finalmente inicia a viagem de trem para Tumiritinga. Quando percebe que Belo Horizonte está ficando para trás, dúvidas e conflitos intensos o assaltam. “O que estou fazendo? O que vai acontecer? Estou fazendo a coisa certa? Não devia ficar com a Cleide e as crianças? Parece uma loucura...” O corpo fica rijo. Começa a esfregar as mãos.

...

Ele passa a viver a expectativa do que lhe acontecerá. ... Agora terá de correr os riscos de sua decisão.




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Trechos de outros capítulos do livro: (Clique e escolha os trechos que quer ler.)



Capítulo 1 - Fim Próximo


Vítima de uma doença incurável, Joman se prepara para morrer.


Capítulo 2 - Pregressos


Como o pai de Joman, um imigrante, conheceu sua mãe, como foi o casamento, qual foi o apelido que colocaram em seu pai.


Capítulo 3 - Paixão Atormentada


Nascimento de Joman, o caso extra-conjugal do seu pai, os dramas dentro da família.


Capítulo 4 - A Luta


Começa uma luta entre o ativo Joman e sua aflitiva mãe. A dinâmica do núcleo familiar.


Capítulo 5 - Reveses da Vida


Jomam começa a conviver com outros meninos e a freqüentar a escola, e sofre as primeiras decepções fora de casa. O sofrimento dos primeiros anos, a paixão oculta na pré-adolescência, as dificuldades em se ajustar, as angústias, as humilhações, os esforços desesperados para conseguir conviver com es outros e ser respeitado, assim como os perigos, são temas deste capítulo, o qual alcança até a idade dos dezoito anos.


Capítulo 6 - O Outro Mundo


A despeito dos temores, Joman escapa e vai viver em outra cidade onde ninguém o conhece. Influência de sua timidez nas escolhas, como por exemplo, do trabalho. As primeiras vitórias. A primeira namorada aos vinte e cinco anos. O casamento. os sofrimentos e prejuízos causados pela timidez.




Os últimos quatro capítulos – mais da metade do livro – são adrenalina pura.



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