(Informação: Três ponto (...) entre parágrafos indicam que outros parágrafos foram retirados; no começo ou final de parágrafo indicam que textos foram retirados daquele parágrafo)
Ameaça de uma Doença
Numa tarde de quinta-feira, no começo de fevereiro de 1965, Joman procura fixar rapidamente um diamante de meio quilate para serrá-lo, a primeira etapa da lapidação, quando a pedra se desprende de sua mão e cai.
– Você tá com a mão doce? – pergunta Aristides ao lado, em tom de brincadeira, interrompendo o
seu trabalho.
– Até parece...
Joman, um tanto sem graça, logo encontra a pedra e após certificar-se de que ela não sofreu dano, volta ao trabalho. E pensa em quantas vezes isto aconteceu nos quase doze anos de profissão – não mais do que cinco. Portanto, o que acaba de acontecer é um simples acidente. Sua mão sempre foi firme, mas assim mesmo ele redobra os cuidados e prossegue com o serviço.
... Contudo, na
segunda-feira pela manhã outro diamante cai, logo no começo do trabalho.
– Que é isso Joman?... – indaga Aristides, com expressão de incredulidade. – Algum problema?
– Esquisito...
Antes de se abaixar para procurar a pedra, ele
ergue a mão direita e observa. Tem a impressão de estar com um leve
tremor. Depois ergue a esquerda, observa as
duas, e a impressão parece confirmar-se. Lívido, arregala os
olhos. O companheiro, que interrompeu o trabalho e o acompanha com
o olhar, insiste:
– Algum problema?
– Ai! Ai! Ai! Estou achando, assim, que minhas mãos tremem... ou é impressão? Olha aqui...
...
Opiniões dos Médicos
No ambulatório do Hospital das Clínicas,
onde já é conhecido pelos atendentes pela freqüência de suas consultas,
é encaminhado a um clínico geral. Apreensivo, ele entra no
consultório. O médico, depois de folhear o seu prontuário, colher a
história do tremor, dos antecedentes pessoais e familiares, efetuar o
exame físico e em especial das mãos, comenta, enquanto volta
a folhear o prontuário: – Estou vendo aqui, pela anotação de um colega, que
você sofre de hipocondria. Esse tremor pode ser mais uma manifestação
dela.
– Não sabia, doutor. Que doença é esta?
– É um distúrbio psíquico que leva a pessoa
sentir coisas físicas, como aquelas que você vinha tendo. Você está
passando por alguma dificuldade no momento? Dificuldade no trabalho, na
família, alguma preocupação maior, de qualquer natureza?
– Não, doutor. Estou, assim, vivendo os problemas normais da vida, quero dizer, até aparecer o tremor.
– Você tem certeza de que não existe mesmo ninguém na família que tenha ou já teve problema semelhante?
– Certeza, certeza, não, porque tenho uns parentes em Portugal, e não conheço, assim, nenhum deles.
O médico observa o seu semblante assustado, os músculos do rosto contraídos, pensa um pouco e retorna: – Vou te prescrever um calmante leve, até mesmo pra
você dormir melhor, e encaminhá-lo a um especialista de glândulas e
outro do sistema nervoso, um neurologista, para avaliações
especializadas.
Nesse mesmo dia ele se lembra do seu tio Cândido,
que morreu cerca de dez anos antes. Telefona para um primo, filho dele,
que trabalha numa repartição pública, e fica sabendo que no início da
doença apareceu um tremor. Essa notícia o deixa alarmado.
Ele viu o tio duas vezes. Na primeira,
quando chegou a Belo Horizonte, ele estava adoentado; na
segunda, achava-se em fase terminal. Lembra-se claramente da
segunda visita, de poucos minutos: o tio estava cego, definhado,
inválido, insano e gritava muito. Associa o seu caso ao dele e
começa a imaginar que terá o mesmo fim. À beira do desespero,
quase não dorme aquela noite, mesmo tomando o calmante.
...
Depois o médico faz o exame físico, testando várias partes do corpo. Por fim informa: – O exame neurológico está praticamente normal. – Antes de
Joman completar uma respiração de alívio, ele continua:
– Exceto, é claro, o tremor, e parece que tem uma
diminuição da força nas mãos.
– O senhor acha que é, quero
dizer, acha que é, assim, coisa séria, doutor Claudiano? – gagueja intensamente.
– Está cedo para dar uma
resposta. Vou pedir vários exames.
...
Erguendo a cabeça, o médico tira os óculos, passa a
palma da mão pelos cabelos, começando pela frente e terminando na nuca,
olha-o, abre um sorriso e diz: – Meus parabéns! Você
não tem nenhum problema de glândulas.
Ele desvia o olhar do médico, abaixa a cabeça,
volta a levantá-la, agora com expressão de desapontamento. – Não tem nem um pouco, assim, quero dizer, de
hipoglicemia, doutor?
– Não. A sua glicose é
normalíssima – volta o médico, ainda sorridente.
Joman finge ficar alegre com a notícia, para
agradar ao médico, coisa habitual nele. Por trás dessa aparência
cresce a nuvem negra da doença do tio.
...
Quando ele entra na sala do
neurologista, depois de fazer todos os exames pedidos, suas
pernas estão bambas e a respiração é curta. O medo quanto aos
resultados é enorme. Depois de olhar os papéis, chapas de raios X,
gráficos, o Dr. Claudiano faz outras perguntas.
– Alguma mudança nos olhos, na visão?
– Não, acho que não, acho que está a mesma coisa.
– E na força das mãos, dos braços e das pernas, alguma alteração?
– A força? Sim... acho que está, assim, menos... – responde sem convicção.
...
Joman reúne energias e
indaga: – Será... será que estou com alguma doença,
assim, mais grave, doutor?
– Não tenho condições de afirmar isso, pelo menos por enquanto. O
tremor, por si só, não significa grandes coisas. Pode ficar só no
tremor, pelo resto da vida. Um tremor idiopático, isto é, de causa
desconhecida. Pode até desaparecer com o tempo. Mas quando se junta
com outros sinais e sintomas, como diminuição da força, problemas de
visão... é isto que me preocupa no seu caso.
Nada é tão aterrador para um paciente quanto ouvir
seu médico dizer que está preocupado. Joman desaba por dentro, perde
a fala, tem a sensação de que vai desmaiar. Por uns segundos,
talvez minutos, a voz do médico é um misto de eco e sons lentos, com
lacunas.
– ...a gripe... encefalite... seu tio... esclerose... – ficam registrados em sua mente como palavras soltas.
Ao readquirir o equilíbrio, pergunta
gaguejando: – Qual é mesmo a doença, doutor?
– Suspeito de tremor idiopático. Não descarto, embora
seja uma
possibilidade mais remota, de fase inicial de esclerose múltipla. Só
com
o tempo posso dar um diagnóstico definitivo.
– Essas doenças são, assim,
difíceis de curar?
– Infelizmente, para o tremor idiopático, não temos
tratamento algum. Para a esclerose múltipla, não temos tratamento
específico, mas alguns medicamentos e certos cuidados podem trazer
alguma melhora. Vou fazer uma prescrição e você deve vir aqui
periodicamente para eu acompanhar o que acontece e firmar o
diagnóstico.
Joman reúne o restinho de energia e faz uma pergunta cuja resposta teme:
– Essa outra doença, doutor, esclerose? – o médico balança a cabeça –
dura muito tempo?
– Pode durar anos, até vinte,
trinta, cinqüenta...
– O senhor tem condições de dizer, assim, se pode
durar menos?
– Pode. Mas não vamos ficar aqui pensando no pior.
Vamos dar tempo ao tempo.
Para um indivíduo como ele, é difícil pensar no
menos ruim.
– Doutor, o senhor acha que, vamos dizer, que pode ser
uma doença que passa, quero dizer, de família?
– Você quer dizer, hereditária? – Joman
balança a cabeça. – Alguns tremores podem ser
hereditários, mas não temos evidência de que a esclerose múltipla
seja.
Enquanto aguarda o médico fazer a prescrição,
precisa se conter para não entrar em desespero. “O que vai ser de mim? Se for um tremor simples, não
posso trabalhar. Se for a outra doença...” – não ousa terminar o
pensamento.
... vai direto ao local de
trabalho do primo, filho do tio falecido.
– O tio Cândido – começa –, quanto tempo, assim, durou a doença
dele, você lembra?
– Menos de dois anos –
responde o primo. Joman estremece com a informação.
– E você sabe, assim, qual que era a doença?
– O médico falou numa tal de
esclerose múltipla.
Joman sente um calafrio, a cabeça fica subitamente
vazia, a boca seca, a respiração torna-se ofegante – um medo
aterrador toma conta dele.
...
... Ao chegar à rua já não tem forças para atravessá-la;
senta-se no meio-fio e fica olhando um ponto indefinido do
asfalto, com o semblante vazio e a respiração difícil. Atordoado,
o mundo não existe mais dentro dele e ele não está no mundo de
fora. O sol bate-lhe na pele e ele não sente o calor. Pessoas
caminham em volta, movidas por uma força que não é a da vida. Carros
passam em frente, mas não vão a lugar algum. Sem dentro, sem fora, sem
calor, sem vida, sem destino – tudo lento, embaçado. Fica ali mais
alguns minutos.
...
Ela procura o Dr. Claudiano, sem o conhecimento de
Joman. Solícito, o médico responde a todas as suas perguntas,
relata com pormenores a evolução dos dois quadros.
– O senhor está achando que é
esclerose múltipla?
– Como eu disse, é a hipótese menos provável.
Entretanto, ela é uma doença que na fase inicial pode apresentar sinais
e sintomas tão discretos e variáveis que tornam o diagnóstico difícil,
e leva muitas vezes o médico a conduzir o tratamento como se fosse
outra doença. E pode acontecer o contrário: os indícios sugerem
esclerose e o tempo mostra que o problema é outro. Vou observar a
resposta do organismo dele à prescrição. – Após rápida pausa,
completa: – E substituí o calmante por um sonífero
para que ele durma melhor.
– O Joman disse que a doença do
tio dele durou menos de dois anos e que ele morreu louco...
– Alguns casos podem mesmo ter
uma evolução muito rápida, de meses apenas. Quanto à insanidade, pode
ocorrer numa pequena porcentagem de casos, na fase final.
Cleide volta para casa abatida. Reconhece que está
diante de um problema sério. O futuro da família ficou incerto de uma
hora para a outra. Entretanto, nada comenta com o esposo.
Decisão Radical
Joman passa a maior parte do tempo em casa, andando de um lado para outro. Gradualmente instala-se uma silenciosa revolta contra Deus. “É este o prêmio que o Senhor me dá pela vida direita que sempre levei? Onde está a Sua justiça?”, pensa com freqüência cada vez maior.
Com o passar dos dias o tremor torna-se mais
evidente, em particular quando executa movimento com os braços e
mãos, até mesmo quando pega uma caneta para escrever, coisa que o
constrange, se feita na presença de alguém.
...
Completados os trinta dias após a última consulta
com o neurologista, ele retorna,como lhe foi recomendado. Está
acompanhado de Cleide.
– Acho que estou piorando –
diz ao médico, em tom de lamento.
– O que há de diferente?
Ele relata a dificuldade para tomar café, água ou
qualquer líquido quando a vasilha está muito cheia. Dá informes
confusos sobre a visão e a força. E completa, descrevendo a
conversa que teve com o primo e o diagnóstico do seu tio
Cândido.
O médico faz novo exame neurológico e
informa: – Do meu ponto de vista não houve piora.
Apenas o tremor tornou-se mais constante.
...
A despeito de continuar seguindo a prescrição, a
doença não regride. Seu estado de espírito é cada vez mais
precário, com a revolta e a tristeza se alternando. “Só um milagre me salva, só um milagre...”,
pensa constantemente. Ora anda de um lado para outro dentro de casa e no
quintal, ora deita-se encolhido na cama, onde permanece longos
períodos.
Tentativas Desesperadas
Por seu lado, Cleide não desiste de buscar
solução. Fica sabendo de uma mulher que, apesar de não ser
médica, faz tratamento homeopático, e fala sobre o assunto com o
marido.
“Quem sabe que o milagre vem com
essa mulher?”, indaga a si mesmo, com uma ponta de esperança.
Vão à consulta. A mulher é direta e
objetiva.
– Pára com esses remédios – ordena ela no final do relato – e toma umas pílulas que vou receitar.
– E a senhora acha, assim, que cura?
– Cura! – responde
com convicção. – Em uma semana você vai estar
muito melhor.
Joman se apega a essa esperança, deixa os
remédios do neurologista e começa a tomar as minúsculas pílulas.
Uma
semana depois o seu quadro está inalterado. Decepcionado e
aborrecido, suspende as pílulas e fica sem tomar remédio
algum.
...
Cleide não entrega os pontos. Decide
apelar para a fé religiosa.
– Querido, vamos pedir a
graça de São Judas Tadeu? – convida ela um dia.
Embora seu pai tivesse todo aquele fervor
religioso, ele próprio nunca se envolvera
muito com religião. Nos últimos dias, a fé em Deus,
que nunca foi lá grandes coisas, praticamente desapareceu.
– Ah, Cleide, bobagem – responde
com desalento. – Se até Deus me abandonou, como é
que um santo, quero dizer, um simples santo,
vai me curar?
– Ôôô Joman, não fale isso
de Deus... – sua voz não tem o tom de reprovação, mas de
súplica. – E São Judas Tadeu é um santo forte
para as causas impossíveis, você não sabe?
– Já ouvi falar – volta com desinteresse.
– Então, querido. Vamos lá, vamos tentar.
Ele fica indeciso. “Quem sabe é isto? Como não tenho muita fé, Deus não me ajuda.”Após breve pausa, volta a pensar: “Mas pode ser... pode ser que, tendo tanta coisa pra cuidar,
Ele deixa algumas nas mãos dos santos... e os santos são menos
exigentes”.
Cleide interrompe seus pensamentos:
– Vamos, querido, vamos tentar!
– Então vamos – responde com a voz um pouco mais animada.
Na igreja, erguida em nome do santo ...
...
Em menos
de uma semana, não vendo melhora, ele sai à rua para
encontrar-se com um freguês que não aparece há muito tempo e que, certa feita, contou umas histórias de um homem que curava muita gente. No dia não deu importância ao caso, pois sempre desconfiou dos curandeiros. Entretanto, sua situação agora não é de se
permitir pruridos éticos ou escrúpulos religiosos. Acha-se como um barco que está afundando: atraca em qualquer porto. Quer encontrar a cura, não importa de onde venha.
– Ele faz verdadeiros milagres – confirma o freguês, quando se encontram. – Já curou muita gente desenganada, e não cobra nada, nada!
Em casa ele conversa sobre o assunto com a
esposa.
– Estou disposta a te
seguir pra qualquer lugar, você sabe disso. Vamos tentar!
Vamos tentar! – completa ela, com ânimo elevado.
...
Quatro dias depois, ele acorda com uma
estranha sensação nos braços. Sai correndo à procura da
mulher, que já se levantou.
– Cleide, Cleide, acho
que estou indo! – diz, alarmado.
Ela responde aflita. – O que é, querido?
– Não é dor e nem
dormência, é uma coisa esquisita que corre dentro dos braços,
parece que é nos nervos. – Desesperado, implora:
– São Judas, me salva!
A estranha sensação parece seguir o ritmo do
tremor. Convencido de que a doença está se acelerando,
lamenta: – Vai ver que piorei por causa
daquele remédio do curandeiro. Que que eu tinha
de ir lá?...
Tomado pela raiva, atira a garrafa com o
restante do líquido no quintal, quebrando-a. Vai para a
cama, deita-se encolhido como um feto. Não há mais nada
que possa fazer.
...
"Não aceito, não aceito
de jeito nenhum essa doença azarada!”, “Esse tal de Deus
não existe, é uma invenção.”, “ Qual é o meu crime? Qual?”, “Eu só levei
ferro na vida, e continuo, para aprender.”, “De que adiantou ser bom?
Só aproveitaram de mim.” – são as coisas que mais
repete.
Reviravolta na Vida
No terceiro mês de doença, numa manhã,
ele está sentado na sala, num dos períodos de ruminação. Subitamente
uma lembrança do passado desencadeia uma seqüência rápida, num
turbilhão
de imagens e sons.
– Ô Travessa!
– Ô Travessa “Ôpa Ôba”!
– Travessa “Ôpinha”!...
– A certidão de nascimento está errada.
– Não conta pra ninguém, hein?! Se contar eu te bato.
– Se ocê é home, travessa essa linha, Travessa!
– Correu de medo, cagou no dedo!
– Seu pai num travessa mata-burro, e ocê?
– Joman, vai buscar a opa do seu pai no guarda-roupa!
– Belma, vai lavar a opa do seu pai!
– Bebe o chá, senão apanha!
– Me empresta um dinheiro.
– Me dá...
– Você é um cara bonzinho.
– Gente legal que nem você é difícil.
Enquanto as imagens e os sons passam acelerados pela mente, o sentimento de revolta
cresce. Chega a um nível tão alto que a mente
silencia. Quando o pensamento volta, o foco é
outro.
“Estou indo mesmo – recomeça –, vivi na merda, engoli
cobras, sapos e lagartos. Fiz um monte de coisas que não
queria fazer. Vivi encurralado pelos outros, de medo, puro medo. Vai
tudo pra puta que o pariu! Vou viver a vida que não vivi, nem que seja
só por uns meses” – decide. Em seguida berra com toda a
força de seus pulmões:
–Vão todos para a puta que os
pariiiiiiiiu!...
Ao ouvi-lo, Cleide, que se acha na
cozinha, vai correndo para a sala. Ela jamais o viu sequer
erguer a voz, que dirá soltar um palavrão, e no trajeto
lembra-se do que o neurologista lhe disse, em
particular, sobre a esclerose: algumas pessoas, poucas,
enlouquecem no final da doença. Aflita e ofegante, ela
...
....
Aos poucos o semblante
de revolta vai dando lugar a um meio sorriso de
contentamento. “Fazer o que queria e
não fiz... brigar... xingar... amar... enquanto a doença
permitir. Depois, aí sim, dou o tiro e vou embora
alegre.” Num arranco solta-se da esposa, dá um
salto, põe-se de pé e grita: – Liberdade! Vou ser livre!...
Liiiivre! – e continua, agora baixinho, andando de
um lado para outro, ante o olhar atônito de Cleide: – Liiiivre, liiiivre, liiiivre, liiiivre.
Retorna aos pensamentos.
“É isto! É isto! É isto que tenho de
fazer... Não posso ir prisioneiro, não posso!
A vida toda me perseguiram, e eu, o tempo todo, tentando
escapar. Ah!...
...
Decide mesmo dar uma guinada na sua vida.
...
Vislumbra também o caminho, um caminho
totalmente diferente daquele que trilhou.
“Tenho de reviver tudo o que for possível,
nos poucos meses que me restam, da
maneira que quis e não consegui! Vou à forra com os que
abusaram da
minha fraqueza. Vou cobrar dos que me exploraram e me deram
prejuízos.
Vou desafiar os que me humilharam. Vou confessar os desejos
abafados.
Vou xingar quando tiver vontade. Vou declarar aquele
amor.” Pensa em tudo isso, e muito mais, ... Está disposto a se transformar num outro homem,
o homem que deveria ter sido sempre.
...
Subitamente ele pára, medita, e em poucos segundos elabora um plano: “Vou voltar a Tumiritinga e reviver tudo o
que for possível, mas de outro jeito. Não tenho nada a perder.
O pior que pode acontecer é alguém
me matar, mas isso significa apenas antecipar em dias ou
meses...” Olha para fora, através da janela, com olhar distante, e constata:
“Quanta coisa pendente eu tenho na minha
vida...” A seguir toma uma decisão:
“Vou seguir uma ordem, vou começar pela
infância”.
...
... Ele acha que a causa
dos seus problemas econômicos e financeiros são os outros. Os
prejuízos que teve foram culpa deles. Imagina-se vítima, assim como sua
família.
...
Rumo ao Passado
Nos dias subseqüentes ele
toma iniciativas como alguém que se despede da vida.
Desfaz-se de seu maquinário de lapidação e do acordo sobre as
despesas da sala
com Aristides. Vende o carro. Numa manhã sai de casa
resoluto, pisando firme, para encontrar-se com alguns
devedores, pessoas às quais emprestou dinheiro ou das
quais pagou dívidas por ter sido
fiador. “Tenho de acabar com essa mania de
falar macio com os outros, de ficar dando
voltas. Até parece que estou pedindo desculpas pelo simples
fato de
estar falando. Onde já se viu isto?”, diz para si
mesmo. Está disposto a ser enérgico nas cobranças, falar
firme, como vem falando com
a esposa.
...
... Entende que a heróica decisão de tornar-se
livre não é suficiente para libertá-lo. Expressar-se com
liberdade para uma pessoa que ele sabe que o ama, como a
esposa,
ou para quem é seu amigo, como o Aristides, é uma coisa. Falar
com os
de fora, é outra, bem diferente. Imagina, então, que sua
volta a Tumiritinga é mais importante do que lhe pareceu,
porque ao reviver fatos que o oprimiram, aí sim, talvez fique
livre do medo,
talvez alcance a liberdade. “Quero ter o
gostinho dela antes de ir...”
...
Depois de prometer à esposa que vai dar
notícias com regularidade, Joman finalmente inicia a viagem
de trem para Tumiritinga. Quando percebe que Belo Horizonte
está ficando para trás, dúvidas e conflitos intensos o
assaltam. “O que estou fazendo? O que vai
acontecer? Estou fazendo a coisa certa? Não devia
ficar com a Cleide e as crianças? Parece uma loucura...” O corpo fica rijo. Começa a esfregar as mãos.
...
Ele passa a viver a expectativa do que
lhe acontecerá. ... Agora terá de correr os riscos de sua decisão.
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Trechos de outros capítulos do livro: (Clique e escolha os trechos que quer ler.)
Capítulo 1 - Fim Próximo
Vítima de uma doença incurável, Joman se prepara para morrer.
Capítulo 2 - Pregressos
Como o pai de Joman, um imigrante, conheceu sua mãe, como foi o casamento, qual foi o apelido que colocaram em seu pai.
Capítulo
3 - Paixão Atormentada
Nascimento de Joman, o caso extra-conjugal do seu pai,
os dramas dentro da família.
Capítulo 4 - A Luta
Começa uma luta entre o ativo Joman e sua aflitiva mãe. A dinâmica
do núcleo familiar.
Capítulo 5 - Reveses da Vida
Jomam começa a conviver com outros meninos e a freqüentar a escola, e sofre as
primeiras decepções fora de casa. O sofrimento dos primeiros anos, a paixão
oculta na pré-adolescência, as dificuldades em se ajustar, as angústias,
as humilhações, os esforços desesperados para conseguir conviver com es outros e ser
respeitado, assim como os perigos, são temas deste capítulo, o qual alcança até a idade dos
dezoito anos.
Capítulo 6 - O Outro Mundo
A despeito dos temores, Joman escapa e vai viver em outra cidade onde
ninguém o conhece. Influência de sua timidez nas escolhas, como por exemplo, do trabalho.
As primeiras vitórias. A primeira namorada aos vinte e cinco anos. O casamento. os sofrimentos e
prejuízos causados pela timidez.
Os últimos quatro capítulos – mais da metade do livro – são adrenalina pura.
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