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O Outro Mundo


A despeito dos temores, Joman escapa e vai viver em outra cidade onde ninguém o conhece. Influência de sua timidez nas escolhas, como por exemplo, do trabalho. As primeiras vitórias. A primeira namorada aos vinte e cinco anos. O casamento. os sofrimentos e prejuízos causados pela timidez.



Capítulo 6 – O Outro Mundo


(Informação: Três ponto (...) entre parágrafos indicam que outros parágrafos foram retirados; no começo ou final de parágrafo indicam que textos foram retirados daquele parágrafo)



Primeiros Progressos

Depois de vários meses, quando completa 18 anos, em 1953, finalmente o jovem decide-se.

– Acho que vou para Belo Horizonte – comunica aos pais.

– Fica na casa do Cândido– apressa-se das Dores, referindo-se ao seu irmão. O pai corta a proposta imediatamente.

– Não! – a negativa é, além de pronta, seca e enérgica, coisa rara nele. E continua: – Enquanto não puderes ter a tua casa, more num hotel, numa pensão, qualquer coisa assim. Eu lhe mando dinheiro.

Joman não entende por que não pode morar com o tio, embora se lembre vagamente de ter escutado, quando muito criança, de que houve um problema entre ele e o pai. Mas isso tornou-se um desses assuntos proibidos de comentar, e acha que não é hora de desenterrá-lo.

...

... Faz uma visita ao tio Cândido, que se acha meio adoentado, e fica conhecendo a família. Logo, logo, está à procura de emprego.

Surge a oportunidade de trabalhar, em caráter experimental, como ajudante de um lapidário de diamantes, que tem as máquinas num cômodo de sua própria casa. A despeito de ser uma atividade desconhecida para ele, a oferta o atrai por ser um lugar onde só há duas pessoas, o dono, chamado Timóteo, e um empregado, de nome Aristides. O dono aparenta uns quarenta anos e o empregado menos de trinta; ambos são discretos e de pouca conversa. Isto tem um peso na decisão devido à sua dificuldade de comunicar-se. Pesa também o fato de o trabalho ser próximo do pensionato.

A timidez de Joman, confundida com humildade, é um ponto positivo neste começo. Tanto Timóteo como Aristides logo simpatizam com ele e têm paciência ao ensinar-lhe o ofício. Ajudam-no também a livrar-se do serviço militar. Esse acolhimento o estimula, e ele se dedica cada vez mais ao aprendizado. Quando domina todo o trabalho com o diamante, recebe um aumento substancial de salário. Tem agora condição de manter-se por conta própria e escreve ao pai avisando-lhe que ele não precisa mais enviar o dinheiro de reforço.

...

Decorridos quatro anos, Timóteo, o seu patrão, decide mudar-se de uma hora para outra para o Rio de Janeiro. Joman, que já comprou o barracão onde mora, que já concluiu o Madureza do ginasial e está prestes a terminar o do clássico, que sonha tornar-se advogado para combater as injustiças, tem de reformular os seus planos. “Agora eu tenho é de arrumar outro emprego; primeiro a sobrevivência”, diz para si mesmo. Sua experiência como desempregado é amarga – fica indeciso, não sabe se procura trabalho em outra atividade ou insiste na de lapidário, sente medo do futuro, e passa por problemas digestivos. “Acho que estou sofrendo do fígado”, imagina, o que o deixa mais paralisado ainda.

Aristides procura-o pouco mais de duas semanas depois que ficaram desempregados, com uma proposta: montarem juntos uma lapidação.

– Montar uma oficina de lapidação?! – Ele nunca pensaria em um negócio próprio, daí o espanto.

– É. O equipamento não é caro e a gente paga em parcelas. – Joman fica pensativo. Aristides persevera:– Tô te falando, num é caro.

- Mas e se num tiver, assim, o serviço?

– É claro que tem o serviço.

Ele volta a ficar pensativo. Depois de alguns segundos pondera: – Tem o aluguel, as outras despesas... o pó de diamante que é caro... – refere-se a um pó usado com óleo de mamona para cortar e polir o próprio diamante. – Pode faltar dinheiro pra essas coisas... Você já pensou? A não ser... talvez fosse possível aqui no meu barraco... quero dizer, aí não tem a despesa do aluguel.

...

Eles começam a visitar os fregueses em potencial, já seus conhecidos. Um deles, Jessé Primo, apenas dez anos mais velho do que Joman, estabelecido na Rua Platina, na zona oeste, que compra todo o tipo de pedras preciosas em bruto e as vende como tal, ou as lapida, também para venda e montagem de jóias, resolve prestigiá-los.

– O mesmo serviço que eu dava pro Timóteo vou mandar pra vocês.

Isso anima Joman. O comerciante sabe que eles são bons oficiais e merecedores de confiança. Vão ter um serviço regular, garantido por Jessé, que cobrirá as despesas. O que “pingar” dos outros será lucro.

Alugam uma sala num prédio muito antigo, bem no centro, como quer Aristides, e montam a oficina, com uma máquina de serrar, comum aos dois, e equipamentos separados para formar e polir as pedras. Vão trabalhar de forma autônoma e acertam que as despesas serão divididas meio a meio. Poderão receber encomendas separadas ou em conjunto.

...

Entende-se com Aristides e passa a ser o contato da dupla com Jessé, enquanto o sócio, por ser desinibido, fica encarregado dos outros clientes.

Quando vai lá para apanhar diamantes ou levar os brilhantes, geralmente tem de esperar um pouco porque Jessé ora está atendendo alguém, ora supervisionando seus próprios lapidários e joalheiros. Nesse tempo Joman o observa atentamente e sente um grande desejo de enriquecer, como está acontecendo com ele. Ficar rico significa a concretização de uma vida melhor, não só do ponto de vista material mas, principalmente, de ser reconhecido e respeitado, e, ainda, de realizar um sonho antigo: arrumar uma namorada.


Comprador de Diamantes

Numa dessas idas ocorre algo inesperado. Jessé está atendendo um garimpeiro que tenta vender-lhe um pequeno lote de diamantes miúdos, pesando no máximo meio quilate cada.

– Seu preço está alto e eu estou com muito diamante no estoque – diz Jessé.

– Quanto que o senhor paga? – pergunta o garimpeiro, num claro esforço para fazer a venda.

Jessé faz uma proposta, que é recusada.

– Por que você não compra? – sugere o comerciante a Joman. – Compra, lapida, traz os brilhantes aqui que eu te compro.

Ele fica assustado com a sugestão. Não sabe o que dizer, balança os dois braços. Quer ficar rico, mas nunca lhe passou pela cabeça comprar diamantes.

– Os diamantes são todos bons – argumenta o garimpeiro, agora voltado para Joman. – Pode examinar.

Ainda calado, ele os examina. E nesse momento brota-lhe uma ponta de ambição.

– Faz uma proposta – diz-lhe Jessé, para estimulá-lo.

Joman faz a proposta, um pouco mais elevada. O garimpeiro se queixa, tenta regatear, mas o silêncio de Joman, causado por sua timidez, dá-lhe a impressão de firmeza. Eles fecham o negócio.

– Dá seu endereço pra ele – aconselha Jessé. – Uma próxima vez ele pode te procurar diretamente.

... Jessé aproveita a oportunidade para lhe dar um conselho.

– Se você não tivesse comprado, eu ia comprar uma pedrinha pra ele não sair de mãos vazias. Nesse ramo você tem de adoçar a boca da pessoa, nem que seja com uma balinha. Se ele te procura e você põe um dinheirinho no bolso dele, mesmo que seja pouco, só pra adoçar, ele vai te procurar outras vezes, e numa dessas pode aparecer com um grande negócio.

Ao chegar à oficina, conta a Aristides o que fez.

– Mexer com garimpeiro é muito perigoso – adverte o amigo. – Tem muito rolo nisso...

– Eu não te consultei pra fazer o negócio, tinha de resolver, assim, lá na hora, sabe como é. Aí fiz, pensando em correr o risco sozinho, se você não quisesse. Mas se você quiser entrar como sócio, tudo bem. Se não quiser, não tem problema.

– Joman, eu prefiro trabalhar com mais segurança, ficar só na lapidação.

...

Por intermédio desse garimpeiro, de vez em quando surgem outros oferecendo-lhe pequenos diamantes. Ele sempre compra um pouco, seguindo o conselho do amigo comerciante, e também para não correr risco de perder. Fica de tal modo conhecido que muitos deles, geralmente pessoas simples, de pouco poder aquisitivo, sabem que quando o procuram não perdem viagem – vendem nem que sejam algumas fazendas finas (diamantes de no máximo ¼ de quilate), o que pode ajudar nas despesas que têm na capital. E assim, lentamente, Joman vai abrindo uma nova frente de negócio. Aristides, vendo que há uma boa margem de segurança na atividade e estimulado por Joman, passa a fazer o mesmo.

...

Cleide

Certa tarde, quando está de volta do trabalho, nota uma jovem sentada na varanda de uma casa ao lado do seu barracão. Ele havia observado que uma família mudara-se para lá naqueles dias.

– Boa tarde – diz ele, de passagem, conservando o hábito do interior de cumprimentar os vizinhos.

– Boa tarde – responde ela.

Isso acontece outras vezes, de forma natural. Ele nem nota que ela está sempre manuseando pequenos objetos. Certa feita, a jovem responde ao cumprimento e faz uma pergunta que o surpreende.

– Você nunca dá uma paradinha não? – Joman leva um susto, pára, vira-se, fica sem fala, balança os braços. Ela, com um leve sorriso, retoma: – Vamos conversar um pouco. Você chama Joman, não é? – Ele sacode a cabeça. – Nome bonito... diferente... – Ele fica desconcertado: mexe-se, põe as mãos nos bolsos, tira-as, torna a colocálas. A moça continua: – Fiquei sabendo que você lapida diamantes, é mesmo?

– É...

– Deve ser interessante... Precisa de muita habilidade, não é?

– É...

– Você trabalha em alguma firma?

Não... é, assim, por conta própria – responde gaguejando.

– É mesmo? – volta ela, com admiração. – Eu trabalho num hospital, sou atendente. Meu nome é Cleide.

– Muito prazer.

– Quer entrar?

– Não, obrigado. Estou, assim, com pressa – responde, mentindo, balançando os braços e gaguejando. E se despede.

Em casa ele sente algo que não define. “Falar que ela é simpática é pouco... ela queria continuar!... me convidou pra entrar!...”, pensa, com incredulidade. “Ela tem qualquer coisa da Vera...”, a sua paixão na pré-adolescência. Recorda-se de algumas moças pelas quais sentiu algum interesse, nos seis anos em que mora em Belo Horizonte, mas a timidez barrou qualquer aproximação. “Eu devia ter entrado, conversado...” Lamenta-se por ter tido a habitual conduta esquiva.

Duas tardes depois, Cleide está no mesmo lugar.

– Ôi Joman, como foi o trabalho hoje? – diz ela, com voz calorosa, interrompendo o manuseio dos pequenos objetos.

– Bem, bem, tudo bem – responde, parando e quase não gaguejando.

– Sabe o que eu estou fazendo? – Ele balança a cabeça. – Uns brinquinhos, gosto de fazer bijuterias. Entra aqui pra você ver.

Titubeante, ele abre o portão e chega à varanda, que está a cerca de dois metros.

– Senta aqui– convida ela com naturalidade, mostrando uma cadeira ao lado da sua. Joman senta-se. – O que você acha dos brinquinhos? – continua ela, mostrando dois que estão na sua mão, enquanto coloca sobre o colo duas ferramentas parecidas com pequenos alicates e pedaços de arame muito fino.

– Bonitos... – diz ele, procurando ser atencioso, sem tê-los visto direito.

– Segura– entrega-lhe os objetos. Enquanto Joman os examina, ela continua: – Estão quase prontos. Você deve entender disso, mexe com diamantes...

– Não, não entendo... – responde, sentindo-se mais à vontade. – São coisas, assim, diferentes... Não estou reconhecendo estas pedras.

...

Em casa o rapaz sente-se satisfeito. Conseguiu ficar mais à vontade. Só tem uma queixa: “Eu devia ter segurado o braço dela...”

...

Os dois passam a se encontrar com regularidade, e seu primeiro namoro se consolida. “Não sei o que ela viu em mim...”, pensa freqüentemente. Seis meses depois de se conhecerem ficam noivos. Joman usa sua poupança para reformar o barracão e dar-lhe aparência de casa. Cleide torna-se importante nesse trabalho: dá sugestões, quase sempre acatadas por ele, providencia materiais e acompanha os serviços nas suas folgas. A casa fica até ajeitadinha, considerando-se que é produto de uma adaptação. Os dois se casam em 1960, pouco mais de um ano após o primeiro contato, quando Joman está com vinte e cinco anos de idade.

Nesse mesmo ano acontece outra mudança em sua vida. Cleide, estimulada por ele, deixa o emprego e dedica-se a fazer bijuterias com o propósito de vender.

– Eu acho que você leva jeito para a coisa e tem a vantagem de ficar em casa – diz ele. Em seguida declara um sonho: – Quem sabe, um dia nós montamos uma firma, uma indústria de bijuterias?

– Será que damos conta, querido?

Os dois combinam de, com o tempo, procurar meios de efetivar o projeto.

...

Garimpeiro de Diamantes

Se de um lado os negócios estão indo bem e a vida com Cleide está ótima, de outro ele começa a enfrentar um problema novo. Algumas pessoas começam a pedir-lhe dinheiro emprestado, ele tem dificuldade de recusar, e ainda não lhe pagam. São quantias pequenas, que os tomadores fingem ter esquecido. Incapaz de cobrar, fica ressentido, mas não lhes nega o pedido seguinte.

Certo dia, um primo de Cleide chega à oficina e começa, fingindo estimá-lo: – Joman, amigão, estou comprando um carro e está faltando uma parte. Dá pra você me emprestar?

Ele titubeia, balança os braços para a frente e para trás, ao mesmo tempo. A abordagem amistosa, embora sabidamente falsa, agrada-lhe, mas não o impede de pensar: “Nem me pagou o que deve e está querendo mais...”

– É um negócio muito bom – volta o homem –, tão bom que não dá pra esperar sair um dinheiro que tenho pra receber. Assim que eu receber, eu te pago.

Joman continua titubeante, balançando os braços. “E eu que ando de ônibus...”, continua a pensar. Finalmente fala, mas o que sai é muito diferente do que deseja: – Tá bem, vou ver, assim, quero dizer, vou ver se posso... Quanto é?

...

– Joman, esse cara tá te explorando – adverte o amigo.

– Acho que ele vai pagar, e, além do mais, você sabe, parente...

Joman alimenta falsas esperanças, para justificar sua dificuldade em dizer não a um pedido. Na sua imaginação, uma negativa equivale a um confronto que, se acontecer, terá conseqüências imprevisíveis – na hipótese menos ruim, perderá a amizade que julga que a pessoa tem por ele; na pior, ficará descontrolado e, talvez, louco. Alimentar essas esperanças também atenua seu desgaste, que não é tanto pelo dinheiro que não vai receber, mas pelo arrependimento de ter cedido. Arrependimento que vem carregado de ressentimento para com os que o tratam como bobo. E nessas ocasiões volta a ser atacado por incômodos, que se diversificam com o tempo – dores erráticas, principalmente na coluna, dificuldades digestivas, insônia. Julga-se doente e começa a fazer consultas médicas. No começo procura particulares. Depois passa a ir ao Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, que, por ser uma unidade de ensino, mantida pelo governo federal, faz atendimentos gratuitos.

...

Certo dia, em 1964, aparece um garimpeiro, de nome Epaminondas, da região de Dores do Indaiá, enviado por Jessé. Ele tem uma maneira curiosa de começar quase todas as falas.

– Vou te contar pra você, não te digo nada. – A voz tem uma cadência tranqüila, e ocorre uma breve pausa entre a primeira e segunda parte da frase. – Tenho dois diamantinho aqui, que é mercadoria de primeira – e retira da capanga, um pequeno tubo de bambu fino, duas pedras, ambas com quase um quilate. – Olha esse branco!

Joman as examina. São duas pedras de um branco extra, coisa relativamente rara. Compra-as por um preço um pouco mais alto do que o diamante comum.

Epaminondas entra com um outro assunto: – Vou te contar pra você, não te digo nada. A minha frente de serviço vai dar muita pedra, mas tô com um poblema. Preciso trocar o motor e a bomba – refere-se a equipamento de mineração. – O motor tá com pouca compressão, baixando muito o óleo, e mesmo se tivesse bom eu tinha de trocar por um maior porque o serviço tá ficando pesado. A bomba também é pequena e tá no bagaço.

Joman não se impressiona com estas coisas porque sabe que todo garimpeiro se julga prestes a ganhar uma fortuna. Mas como é hábito seu, escuta com atenção e procura dar a entender que está interessado no assunto.

– E você já encontrou, assim, outro motor e outra bomba?

– O motor tem na retífica, na base de troca. A bomba tem de ser nova.

– Então está, assim, fácil...

– Vou te contar pra você, não te digo nada. Você pode ganhar muito dinheiro comigo, nas pedra que vai sair.

– Como assim?

– Estou sem dinheiro pra fazer as troca. E ninguém meconhece aqui, não me vendem fiado... – “Já vem mais um pedir dinheiro emprestado”, pensa Joman. E veio mesmo, mas de forma diferente. – Você troca pra mim o motor, compra a bomba e eu te dou uma comissão nas pedra que sair.

Surpreso com a proposta, ele tem a reação que é comum: fica calado, balança os braços. Ocorre-lhe, como curiosidade, saber em quanto importam os gastos.

– Trezentos e vinte dólares – informa o garimpeiro.

– Trezentos e vinte?!

É muito dinheiro para Joman.

A referência ao dólar explica-se pelo fato de que o diamante é cotado nessa moeda no mundo inteiro, e tanto garimpeiros mais esclarecidos quanto diamantários usam-no até mesmo para outros negócios. Ademais a inflação é alta, o que dificulta a utilização corrente do cruzeiro.

– Te dou vinte por cento das pedra que sair – o garimpeiro conclui a proposta.

Joman tem ímpeto de dizer não, mas no fundo sente-se tentado a arriscar. É uma coisa nova, ser sócio de um garimpo, embora nem tenha idéia de como seja o serviço. Desta vez pensa, com vontade de dizer sim, coça a cabeça e consulta Aristides que, ali perto, acompanha a conversa.

– O que você acha?

– Meu negócio é lapidação – responde o amigo, desaconselhando-o indiretamente. O garimpeiro continua insistindo, voltado para Joman:

– Nem precisa entrar com o dinheiro todo de uma vez. A retífica divide em três pagamento, a bomba e os bagulho tem de ser de duas vez.

– Bagulhos? O que é isso?

– Mangote, mangueira, as conexão, essas coisas que precisa pra uma bomba maior.

Aristides, achando que o amigo está numa daquelas situações em que acaba concordando contra a vontade, resolve dar uma força. – Se você fizer o negócio tem de ser por 30%.

– Trinta por cento é muito – retruca o garimpeiro.

– Mas trezentos e vinte dólares também é muito – rebate Aristides. – E é um tiro no escuro.

– Num é tão no escuro não – volta o garimpeiro. E, dirigindo-se a Joman, argumenta: – Pelas mercadoria que você comprou dá pra ver que o garimpo promete. Eu te levo lá pra você ver. Dá pra ir de ônibus num dia e voltar no outro.

– Onde é o garimpo? – indaga Joman.

– No rio Indaiá.

Durante um breve silêncio entre eles, Joman sente-se fortemente tentado a encarar o negócio e propõe: – Acho que vou lá com você, e se gostar do serviço faço, assim, quero dizer, pelos 30%.

A proposta, condicionada à sua ida ao garimpo, nada tem a ver com seu conhecimento sobre o assunto, que de resto é zero, mas apenas para certificar-se de sua existência.

– Vamos fazer por 25% – contrapõe o garimpeiro, na atitude típica do brasileiro de rachar a diferença entre as propostas.

– Faz pelos 30% – regateia Aristides. – Pode acontecer dele nunca mais ver a cor do dinheiro...

...

Epaminondas se dá por vencido. No dia seguinte, cedo, os dois estão a caminho, no carro velho de Joman. O serviço é perto do distrito de Cedro do Abaeté. Num rancho rústico, quase paupérrimo, à margem do pequeno rio, estão três homens, parados, à espera do equipamento.

– A draga é aquela ali – diz o garimpeiro apontando para uma barcaça junto à margem, amarrada em uma árvore; lembra a barca que atravessava o rio Doce, com a diferença de que é menor e o equipamento flutua graças a dois tubulões feitos de chapa de aço. – Vamos descer pra você ver.

Eles descem até a margem e depois sobem na draga.

“Não é possível que isso funcione”, pensa Joman ao ver peças espalhadas, ferrugem em vários lugares, o vazio onde vai o motor.

– Olha! Aqui tem diamante grosso, você num acha? – diz o garimpeiro, com o entusiasmo de todo sonhador, mostrando o pequeno rio e as suas margens.

– Deve ter mesmo – responde Joman. Sua resposta é sincera, apesar de nunca ter visto um garimpo de qualquer natureza. E seu julgamento se baseia na presença de muitas outras dragas trabalhando nas proximidades. – Vamos ver se botamos isso pra funcionar – diz, resoluto, e recebe como resposta um sorriso de satisfação de Epaminondas.

Os dois voltam para Belo Horizonte.

 



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Trechos de outros capítulos do livro: (Clique e escolha os trechos que quer ler.)


Capítulo 1 - Fim Próximo


Vítima de uma doença incurável, Joman se prepara para morrer.


Capítulo 2 - Pregressos


Como o pai de Joman, um imigrante, conheceu sua mãe, como foi o casamento, qual foi o apelido que colocaram em seu pai.


Capítulo 3 - Paixão Atormentada


Nascimento de Joman, o caso extra-conjugal do seu pai, os dramas dentro da família.


Capítulo 4 - A Luta


Começa uma luta entre o ativo Joman e sua aflitiva mãe. A dinâmica do núcleo familiar.


Capítulo 5 - Reveses da Vida


Jomam começa a conviver com outros meninos e a freqüentar a escola, e sofre as primeiras decepções fora de casa. O sofrimento dos primeiros anos, a paixão oculta na pré-adolescência, as dificuldades em se ajustar, as angústias, as humilhações, os esforços desesperados para conseguir conviver com es outros e ser respeitado, assim como os perigos, são temas deste capítulo, o qual alcança até a idade dos dezoito anos.


Capítulo 7 - Tremor nas Mãos


Antes dos trinta anos surge uma doença. A luta desesperada dele e da esposa em busca da cura. A perda da esperança. Sua volta à terra natal para reviver de modo diferente as experiências passadas e realizar seu último anseio: ser livre!



Os últimos quatro capítulos – mais da metade do livro – são adrenalina pura.




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