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Reveses da Vida
Jomam começa a conviver com outros meninos e a freqüentar a escola, e sofre as
primeiras decepções fora de casa. O sofrimento dos primeiros anos, a paixão
oculta na pré-adolescência, as dificuldades em se ajustar, as angústias,
as humilhações, os esforços desesperados para conseguir conviver com es outros e ser
respeitado, assim como os perigos, são temas deste capítulo, o qual alcança até a idade dos
dezoito anos.
Capítulo 5– Reveses da Vida
(Informação: Três ponto (...) entre parágrafos indicam que outros parágrafos foram retirados; no começo ou final de parágrafo indicam que textos foram retirados daquele parágrafo)
A Caminho do Outro Sonho
Finalmente, em janeiro de 1943, Manoel segue para Cachoeirinha. Segue contente, feliz até. Faz esta viagem com nove anos de atraso... nove anos! "Como o tempo passa depressa! E quanta coisa aconteceu!" – diz para si mesmo. – "Mas vou começar em situação melhor do que naquela época", completa satisfeito. Tem a convicção de que o outro sonho, que o levou a cruzar o oceano, vai começar a se concretizar agora – ficará rico, sem dúvida alguma.
Com entusiasmo, compra um terreno, contrata gente especializada e inicia logo a construção. Ele também pega firme no serviço.
E, tal como acontecia na roça, o sotaque português, aliado à sua jovialidade, o tornam popular e estimado. O apelido, já conhecido de muitos, consolida-se por causa do seu semblante orgulhoso ao desfilar pelas ruas trajando a opa, quase todo fim de tarde, nas idas à igreja para rezar. Na caminhada ouve gracejos e os responde bem-humorado. – Manoel da opa, ocê tá indo na igreja rezar ou procurar uma neguinha? – O caso com a jovem negra é conhecido por alguns.
– Procurar sua mamãezinha, ora pois! – responde ele rindo. – Manoel, por que ocê num manda fazer logo uma batina no lugar da opa?
– Não sabes que ela está guardada para a tua extremaunção?
– A bença, dom Manoel. – Deus te abençoe, filho de uma digna senhora.
As pessoas repetem as perguntas diariamente, apenas para ouvir seu sotaque. Mas os gracejos não se limitam ao trajeto dessa caminhada. Em qualquer lugar aonde vai, há sempre alguém que brinca com ele. – Manoel da opa, ocê travessa mata-burro? – De jeito nenhum – responde ele com bom humor. –
Não sou tolo, ora pois!
Mata-burro é uma estrutura de madeira, geralmente de dois ou três troncos, assentados na direção do leito da estrada de terra, sobre os quais são pregadas ou encaixadas pranchas estreitas, perpendicularmente, a espaços, para impedir a passagem de animais. É, obviamente, uma brincadeira de mau gosto, mas é também a pergunta que mais lhe fazem.
...
Desgostos do Menino
Ao chegar em Cachoeirinha, num final de tarde, das Dores fica transtornada ao perceber a quantidade de perigos a que estarão expostos os filhos. Pela rua passa todo o movimento de gente e mercadorias de um lado para o outro do rio. Aquilo, para ela, é um espanto. O rio, que fica próximo, e que é avistado da frente e dos fundos da casa, parece-lhe um espelho traiçoeiro. O trem de ferro, na sua mente, é um monstro que vai esmagar as crianças, se não ficar vigilante. E para completar suas atribulações, o povoado tem uma meninada ociosa que lhe causa arrepios. Ela esteve no lugar umas poucas vezes, com o pai, e depois com o marido, mas sempre rapidamente; já agora, com os três filhos, e ainda para morar, parece um horror! As crianças, ao contrário, ficam excitadas com as novidades. Das Dores passa em claro a primeira noite, tal sua agonia.
Quando amanhece, ela previne os filhos: – Num sai pra rua, ninhum docêis.
Joman vai para frente da casa e observa. O sol, que começa a se levantar, bate em cheio em seu rosto, como se fosse em linha reta. Lá embaixo, à esquerda, no fim da rua, a aproximadamente duzentos metros, o rio corre em direção ao sol. Em frente à casa começa uma outra rua, que termina cerca de cem metros adiante, num muro alto; dizem-lhe que lá é o cemitério. Mais acima, onde começa a Rua da Barca, há um enorme espaço, pelo qual passaram na chegada. Seu coração acelera-se com esse panorama. As novidades parecem despertar o menino curioso que ficou adormecido em um longo sono hibernal.
Ele aproveita que a mãe está ocupada em organizar as coisas e dá uma escapada até a beira do rio. ...
...
Depois sai e vai rápido para onde começa a rua. Chega à beira das duas linhas do trem, numa
suave depressão, bem no meio da área espaçosa, que além de larga é comprida
a perder de vista, tanto do lado
esquerdo como do direito. “– Ocêis num vem aqui não!”, lembra-se da mãe falando quando chegavam, na tarde anterior, o que foi, naturalmente, um estímulo à sua curiosidade. Volta e fica um pouco na esquina da Rua da Barca com aquele espaço. Do lado de lá e do lado de cá, existem casas esparsas, algumas estranhas, compridas,
de tamanho tão grande que ele jamais imaginou existir (são galpões de
atacadistas de cereais). Em toda a extensão, árvores enormes, distantes
umas das outras e distribuídas aleatoriamente, lembram as que existem
nas manchas de matas do sítio. Carroças puxadas por animais transitam
de um lado para outro, carregando coisas e levantando um pouco de poeira.
Gente a pé ou a cavalo anda para todos os lados. Pessoas conversam,
entram e saem de casas de comércio. Ele fica de boca aberta, pasmo com tudo isso.
Logo, logo, é cercado por alguns garotos. Tal como ele, usam calças curtas; diferentemente dele, andam descalços. Seu retraimento dá margem a que comecem a zombar. – Ocê chama Manezinho da opa? – indaga um dos
meninos, seguido de risos dos demais, numa alusão à alcunha do pai. Joman não responde, mas estranha – existe algo errado consigo?
– É Manezinho da opa? – insiste o menino. – Eu cá chamo Joman – responde, quase em sussurro. – Chama cumo? Ele repete, um pouco mais alto. – Joman? Isso é nome? – volta o mesmo menino.
–
Macaquero tem cada nome... – comenta outro. Mais risos. –
Ocê tomém num travessa mata-burro não?
Ele conhece mata-burro, por isso não entende a pergunta, e menos ainda os risos debochados. O grupo se dispersa e ele continua vagando ali por perto.
Alguém chama a atenção para a maria-fumaça, que surge ao longe, do leste para o oeste, e a maioria das pessoas interrompe o que está fazendo para vê-la. A primeira reação que ele tem é de medo e ímpeto de correr para casa. Olha para os lados e observa que as pessoas estão tranqüilas. Resolve esperar. Para se garantir, fica quase encostado a um homem; se este correr, ele corre também.
Quando compreende que ela caminha sobre os trilhos, acalma-se um pouco. Fica a observá-la, com uma ponta de assombro, tentando entender as manobras que faz. Não tarda, sua mãe aparece, com semblante desvairado. – Joman, já pra casa! já pra casa! – grita ela.
No caminho ouve reprimendas o tempo todo.
– Mamãe, num bate ni mim, não... – suplica.
Em casa suas súplicas se repetem em vão. Toma algumas chineladas. –
É procê num me desobedecer mais – diz ela com energia e, em seguida indaga, em tom dramático: –
Ocê quer morrer dibaxo do trem?
...
Mais tarde, já refeito, o garoto relata para a mãe, que está na cozinha preparando o almoço, o que os meninos disseram.
–
Esses muleque num tem o que fazer – comenta das Dores. –
Eles fica bestano na rua, caçano increnca. – E faz um alerta: –
Num vai brigar com eles, não! Eles pode te bater. – Em seguida, interrompe o trabalho, olha para o filho e adverte: –
Joman, num cunfia ni ninguém viu! Ocê num pode cunfiar nem na camisa que ocê veste. Todo o mundo só quer atrapaiá nóis. – Volta-se para o fogão, em seguida.
Ele fica, pensativo, observando a mãe por alguns segundos.
...
No terceiro dia ele arrisca nova saída. O encontro com a garotada é do mesmo jeito: todos fazem zombarias, em seqüência, um após o outro.
– Óia o macaquero que veve na barra da saia!... – risos. – Ele fala “eu cá”... – mais risos.
– Ocê tomém num travessa mata-burro, não? – continuam os risos.
– Travessa ou num travessa? – Travessa? – Travessa? – Ele chama Travessa!
Joman fica mudo o tempo todo, apesar de aborrecido e irritado. Quer ir embora, mas a vontade de apreciar o movimento o mantém ali, até que sua mãe aparece.
Nos encontros seguintes, os meninos continuam a zombaria: –
Óia o Travessa!
Ele, que já sabe o significado implícito do apelido, explicado por Zezito, limita-se a responder desgostoso: –
Eu num é burro não.
O desgosto demonstrado é um estímulo para que retornem gritando:–
Travessa!
E, quanto mais ele insiste em responder, mais alto gritam.
...
Nessa época mudam o nome do distrito para Tumiritinga, um nome indígena, mais adequado do que o anterior, porque significa pequena corredeira, que é, efetivamente, o que existe mais abaixo no rio.
Horror Súbito
Em um desses primeiros dias, Joman e o irmão Peri, movidos pela curiosidade, entram num beco. No fundo existe uma construção em que as paredes são feitas de tábuas de madeira, colocadas na vertical. A porta está aberta; alguém os chama lá de dentro. – Vem cá!
Eles entram. Um sujeito ergue-se, pega uma vasilha qualquer e, ante o espanto dos dois, urina nela e a entrega a Peri. – Bebe o chá! – ordena ele, sentando-se em uma cama.
Peri chora. A ordem volta através de gritos. Joman, atordoado, fica estático. Peri toma um gole e continua a chorar. O sujeito, de pênis ereto, está agora diante de Joman. Este diz algo, recebe um tapa no rosto, cai, e entorna a urina. O sujeito o agarra dizendo: –
Me dá, me dá...
– Mamãe! Mamãe! – gritam os dois, desesperados.
...
Brincadeira Infeliz
Passados pouco mais de dez dias da mudança, com a padaria funcionando e dados os últimos arremates na construção, Manoel procura a professora com a intenção de matricular Joman no segundo ano primário. Embora ele não tenha completado 8 anos de idade, ela se dispõe a estudar o caso e ver se o menino pode acompanhar a turma, mas precisa da sua certidão de nascimento.
...
Sai de lá com os três papéis, sem examiná-los e, para ganhar tempo, passa na escola. Como não é horário de aula, entrega o de Joman a uma jovem de vinte anos, chamada Valdete, encarregada da arrumação.
...
... Assim que chega ao pátio, Joman ouve gritos de
vários meninos.
– Olha o Travessa “Ôpa”! Olha o Travessa “Ôpa”! - risos e gargalhadas ecoam simultaneamente. A algazarra generaliza-se. Fazem um círculo em torno dele.
– “Ôpa” Travessa! – “Ôpinha”!... – “Ôpa”! “Ôpa”! – “Ôpa”! “Ôba”! – Travessa “Ôpa Ôba”!...
O pobre Joman, atônito no meio daquela gritaria e daquelas gargalhadas, ouve a estranha pronúncia de seu sobrenome, sem entender o significado. Não entende também a razão de tanto alarido e galhofa envolvendo sua presença. Com os olhos arregalados, permanece mudo, ouvindo essas coisas por vários minutos, até que a professora aparece e manda que todos se calem. Ela o chama para dentro da sala e carinhosamente lhe explica que houve um erro no seu registro de nascimento.
...
A aula começa e Joman continua atordoado. O pai não o informou sobre a certidão e ele nem sabe o que é isso. De tempos em tempos algum menino sussurra: – “Ôpinha”!... – risos de deboche ecoam pela sala.
A aula termina às quatro e trinta e, puxados por um líder, os meninos gritam em coro na saída: –
“Ôpa” Travessa! “Ôpa” Travessa! “Ôpa” Travessa!
Ele sai correndo, deixando os gritos para trás.
Em casa, ofegante, dá o recado da professora à sua mãe. Ela, que sabe apenas assinar o nome, leva o caso a Manoel, que, por sua vez, se dá conta de que houve um pequeno engano no registro, coisa fácil de ser corrigida. No espaço reservado para o nome está escrito: Joman de Oliveira Ôpa!
Como a interjeição “ôpa” não é conhecida dele, pois seu uso é limitado ao Brasil, Manoel não vê problema no assunto – porque opa, substantivo, a paixão dele, não tem assento, disso ele tem certeza.
–
É só apagar o circunflexo, ora pois! – diz, olhando para o papel. Quanto à exclamação, comenta: –
É mais uma ignorância daquele gajo do cartório. O que mais tem no Brasil é gente ignorante.
Apanha as outras duas certidões e verifica que estão com os mesmos erros.
Joman e das Dores escutam esses comentários sem entender, naturalmente. Mas ficam convencidos de que o problema será resolvido logo. Contudo, Manoel tem de esperar o outro dia.
...
Iniciação Sexual Precoce
...
Certa tarde, no recreio, a servente Valdete pergunta-lhe: –
Você me ajuda a varrer e arrumar, depois da aula?
Ele aquiesce naturalmente, já que fazer as coisas para ter as graças de alguém está se tornando imperioso. Quando os dois terminam de varrer as duas salas e o pátio, que compõem a escola, e de fechar as janelas e portas, a moça lhe faz um convite sedutor no conteúdo e no adocicado da voz: –
Vamos lá em casa? Vou te dar uma coisa.
Ela mora numa pequena casa a poucos metros dali, sozinha.Os dois entram e Joman é conduzido diretamente ao quarto onde existe uma cama de solteiro. Apesar de a janela estar fechada, o ambiente fica com meia-luz pela falta de forro na moradia. – Tira a butina e deita aqui – diz ela com a mesma voz doce, sentada ao pé da cama. Ele obedece, apesar de um tanto assustado. – Vou tirar sua calça... – volta, olhando-o, para ver sua reação.
...
Encurralado Pelos Outros
Paralelamente, Joman continua a ser o estuário de deboches dos colegas, uma espécie de caixa de pancadas. Sem motivo algum, mexem com ele na saída das aulas. Numa tarde acrescem outras ofensas.
– Travessa “Ôpa”, muiezin-in-in-nha! – grita um dos meninos, ladeado por outros. Estes ecoam: –
Muiezin-in-in-nha! muiezin-in-in-nha!
– Eu num sô muié não – retruca, falando baixo. – É muiezinha sim! – volta o primeiro menino. –
Muiezinha, fia do padre. – Eu num sô filho de padre não! – retruca de novo, falando alto, mostrando leve irritação. – Quer briga, quer briga? – retorna o menino que, a seguir, pega um graveto e, num movimento rápido, risca uma linha reta no chão. Ato contínuo, coloca-se do lado de lá da linha, fecha as
mãos, ergue os punhos em posição de luta e desafia: –
Se ocê é home, travessa essa linha, Travessa!
Joman lembra-se das advertências da mãe e, tomado pelo medo, abaixa a cabeça, vira as costas para ir embora. Após os primeiros passos, escuta um coro dos meninos: –
Correu de medo, cagou no dedo! Correu de medo, cagou no dedo! Correu de medo, ...
Ele se vira, sem interromper a caminhada. Os meninos estão andando em sua direção.
Assustado, começa a correr e deixa para trás o coro.
...
Por outro lado, a padaria foi apenas o início do comércio. O espaço daquele cômodo grande foi logo ocupado por cereais, latas de banha de porco, caixas de bacalhau, latas de azeite, potes de azeitona, doces, balas, e outros alimentos e guloseimas. Os pães ficaram limitados a uma pequena vitrina. A padaria tornou-se um armazém de secos e molhados. Agora, decorrido pouco mais de um ano, estão se incorporando diversos utensílios domésticos, ferragens, ferramentas para trabalhar a terra e um tanto de miudezas, de sorte que o nome de armazém de secos e molhados está sendo substituído aos poucos por venda, “a venda do Manoel da opa”. ...
Certa tarde, no recreio, um dos meninos mais exaltados, chamado Joel, aproxima-se de Joman e faz um pedido em tom amistoso: – Pega um espelhinho na venda e traz pra mim – refere-se a espelhos redondos, pequenos, que trazem figuras coloridas no verso, em geral de mulheres, e que os homens costumam carregar num dos dois bolsinhos das calças.
...
O bate-boca termina quando Joel faz um desafio: –
Vamo acertar isso de noite. A minha turma contra a sua.
Combinam se encontrar às sete horas da noite no final da Rua da Capivara, que começa também naquele espaço amplo, em sentido contrário à da Barca.
Joman sente uma ponta de alegria porque encontrou alguém para protegê-lo, fato com o qual não contava. – Ocê vai, num vai? – indaga-lhe Joel, enquanto se afastam. – Vou – responde, titubeante, sem alternativa, e fazendo aquele movimento com os dois braços.
À noite, morrendo de medo, pensa não ir ao local combinado. “Eu num sei nem brigar...”, pensa. Depois acha que se faltar vai ficar muito ruim, pois a briga será por sua causa. Ressabiado, chega ao lugar, uma parte pouco iluminada. Lá estão quatro meninos da outra turma e ninguém da turma do Joel, nem mesmo este. Zé Malta passa o pé descalço no chão, como se riscasse uma linha reta, assume a posição de luta e desafia: –
Se ocê é home, travessa essa linha, Travessa!
Como Joman permanece parado, os meninos caminham em sua direção. Horrorizado, não consegue falar nem fugir. A urina escorrelhe pelas pernas. –
Dexa ele pra mim – grita Zé Malta, muito maior e mais forte, o que não faz diferença, porque, ainda que fosse o mais fraco, não o enfrentaria.
O garoto avança sobre ele e começa a dar-lhe socos – a única alternativa é virar-se meio de lado, para atenuar os golpes. A pancadaria só termina quando Zé Malta o obriga a ficar de frente e lhe desfere um murro no rosto. Joman se abaixa e começa a chorar, enquanto os meninos continuam a dirigir-lhe os habituais impropérios. Ele encontra forças e sai correndo. Os garotos o perseguem por vários metros, gritando: –
Correu de medo, cagou no dedo! Correu de medo, cagou no dedo! Correu de medo, cagou no dedo!
...
O espelho dado a Joel serviu, pelo menos, de lição. O menino parou de mexer com ele, e Joman descobre que pode diminuir seu infortúnio dando coisas para os outros. E periodicamente surrupia um espelhinho, uma bola de gude, um pirulito, umas balas, e os oferece aos meninos. Até o Zé Malta é agraciado. Com isso param de atormentá-lo. Desse modo controla todo o grupo, pelo menos por uns tempos.
Embora continuem a se dirigir a ele pelo apelido habitual, a hostilidade na escola é quase zero. Mas, na rua, outros meninos fazem com ele as mesmas brincadeiras debochadas que adultos fazem com o pai. Ele sempre se mostra desgostoso, o que atiça a molecada. Certo dia os problemas na escola retornam por intermédio de Zé Malta, que faz uma investida em outra área: –
Me empresta um tostão. – Eu num tenho. – Tira lá na venda.
Joman sente o frio do medo e repete aquele movimento com os dois braços para frente e para trás, indicativo de que quer negar e não consegue. Um tostão, ou cem réis, dá para comprar duas dúzias de bananas ou um punhado de balas. (A despeito da mudança da moeda, que transformou os réis em cruzeiros e eliminou três zeros, a denominação antiga ainda continua a ser usada no distrito.) Em casa pensa muito no assunto, mas resiste à sugestão.
Ao se encontrarem de novo, o menino pergunta pelo empréstimo. – Eu num tenho – repete, gaguejando de medo. – Por que ocê num tira na venda? – A mamãe me bate.
O menino mostra as garras, falando baixinho, meio cantado: –
Correu de medo, cagou no dedo! Correu de medo, cagou no dedo!
Joman entende o recado: ou arruma o dinheiro ou volta tudo ao que era antes. Isso gera-lhe um drama. ...
...
Coagido, Joman se torna refém das ameaças.Toma todo o cuidado para que as cenas de hostilidades não se repitam – um agrado para este ou aquele garoto, um dinheirinho extra para Joel e Zé Malta,
mudança no tom da voz, de modo a parecer sempre amistoso.
...
Tornar-se bonzinho, amável, em atos e palavras, mostrar-se diferente do que é,
do que pensa e do que sente, violentar sua consciência são, em conjunto,
o preço que tem de pagar pela liberdade e pelo sossego. Mas a liberdade e o sossego comprados geram uma revolta silenciosa, contida, que cresce com o tempo. E a revolta contida acaba por gerar angústia no pequeno Joman.
Uma vez que o convívio lhe custa tão caro, busca abrigo na solidão, de forma natural, não deliberada. A solidão não é ruim ou má em si mesma, pode
até ser construtiva, despertar forças criadoras; mas, nestas circunstâncias, em que contraria a natureza do menino curioso e ativo,
é aniquilante.
Os dramas silenciosos são os mais terríveis, pois, além de corroerem o eu, parecem
atrair mais desgraças. E no caso de Joman, além de todo esse drama pessoal, nessa mesma época surge um outro, da família. Toma conhecimento dele numa conversa com um jovem que está fazendo compras no distrito.
– Sabe que ocê tem um irmão mulato?
– Eu?... Irmão mulato?...
– Intonces ocê num sabe mesmo?! Pergunta pro seu pai... Ele tem inté mais duas
muié.
Chocado, Joman corre para casa. Procura a mãe e começa a narrar-lhe a conversa.
– Cala a boca! – ordena ela rispidamente, interrompendo-o, e afastando-se em seguida.
...
Entre os dez e onze anos o garoto presencia a primeira altercação séria entre
os pais. Acaba de concluir o quarto ano primário, e Manoel levanta a questão da continuidade
dos estudos.
– Joman – começa ele, dirigindo-se ao filho –,
precisas ir para um colégio, e estou a pensar para qual cidade vamos te mandar.
Talvez... – É interrompido com alarme por das Dores.
– Sair daqui, ir pra outro lugar, sozinho?!
– Ora pois! para continuar os estudos só é possível em alguma cidade... – responde ele pacientemente.
– Mandar uma criança desta sozinha pra uma cidade grande? Onde que ocê tá com
a cabeça, Manoel? – diz ela, um pouco exaltada.
– Tu continuas a ver nossos filhos como se fossem criancinhas indefesas. Olha como
ele está crescido. Não vês?
– Ele é muito criança pra sair pelo mundo.
– Estás a exagerar, das Dores – argumenta com o mesmo tom ponderado de voz.
Com expressão dramática, ela retorna: –
Se aqui perto de mim já é pirigoso, imagina longe! Ocê quer me matar, matar ele? – Podemos nos mudar para uma cidade onde haja colégio – sugere Manoel. – Ir pra uma cidade, um lugar grande? Cumo é que eu vou olhar eles num lugar grande, Manoel? – responde, ainda em tom dramático. – Tu tens de pensar no futuro deles, ora pois! Que futuro haverão de ter sem estudos? – argumenta com certa rispidez. É a primeira vez que Joman vê o pai exprimir uma ponta de irritação. – Num carece, Manoel. Ocê num estudou, e a nossa vida é boa. A Belma casa e os menino vira comerciante, que nem ocê, e pronto! – sentencia ela, mostrando a força habitual quando julga que os filhos correm perigo. – Espero que não te arrependas, mulher. – Em seguida vira-se para o filho: –
O que pensas, Joman?
–
Num sei... – Com tantos problemas, ele não tem como avaliar o que é bom ou ruim para si. – Belma, vai passar a opa do seu pai! – grita das Dores para a filha que está em outro cômodo, e afasta-se, dando a discussão por encerrada. – Tá bem, mamãe – responde a menina.
Manoel volta ao assunto outras vezes, mas encontra sempre a intransigência da mulher. O tempo cuida de consolidar a vontade de das Dores.
E Joman fica sem objetivo. Passa a maior parte dos dias em casa, à-toa, curtindo tristezas ou fazendo pequenos serviços. Começa a desenterrar coisas passadas, como o episódio em que o sujeito obrigou Peri a beber urina e queria que ele fizesse o mesmo, além de tentar o abuso sexual, os achincalhes que sofreu na escola, as maldades que fizeram com ele. Sente revolta; tem vontade de vingarse, mas não vê como.
...
Paixão de Pré-Adolescente
Ele tem liberdade para sair, mas a usa muito pouco porque de vez em quando ouve
alguém – criança, adolescente ou adulto – lhe perguntando com deboche
se ele atravessa mata-burro, ou se seu sobrenome é Opa ou “Ôpa”. Passa a maior parte do tempo em casa e começa a desenvolver um ressentimento
para com o pai. Fala no assunto com o amigo.
– Sabe, Noel, essa gente fica, assim, me chamando pelo apelido, me gozando, gozando
o papai também e ele num reage. Eu queria que ele xingasse eles.
– Se ele xingasse podia inté dar briga, mas que eles ia parar despois, eles ia.
–
Mas ele leva tudo na brincadeira... – o tom é queixoso. –
Estou com muita raiva dele.
– Eles podia inté parar de mexer com ele, mas num ia parar com ocê não... Já encarnaram, num tem jeito.
– Por que ele foi nascer em Portugal? – indaga como se pensasse alto. –
Eu queria que ele morresse! – completa em tom agressivo.
– Ih Joman, ocê num sabe cumo que é ruim num ter pai...
– De que seu pai morreu?
–Morreu matado. Eu era pequeno. Inté hoje eu tenho sodade dele.
– Mas pra que serve um pai medroso, quero dizer, assim, um pai que num briga?
– Eu num acho que seu pai é medroso não. Todo mundo acha que ele é um home bão. Ocê deve dar graças a Deus...
Joman passa uns dias com remorso por ter desejado a morte do pai, mas continua desgostoso com ele.
Aprisionado em casa, só sai ocasionalmente. Uma vez ou outra vai à estação nos horários dos trens de passageiros – uma das poucas distrações do povo local – ou fica observando os serviços dos trilhos que estão sendo feitos ao sul do distrito, para desviar a ferrovia da área urbana, ou acompanha a abertura de novas ruas. ...
Certa tarde, numa das raras saídas, Joman se encanta com uma menina. Ele a conhece de vista, mas, decorridos alguns meses sem vê-la, tem a impressão de estar diante de outra pessoa.Agora seu corpo começa a assumir os contornos de moça. Repara o rosto, os cabelos, as pernas, o corpo todo, a voz. “Como é bonita!”, exclama em pensamento. Segue-a com discrição e a vê entrar em casa, numa rua distante, na periferia do distrito, pelas bandas do noroeste. Passa o resto do dia relembrando sua imagem.
Depois fica sabendo que ela se chama Vera, que é filha de um carpinteiro e que tem treze anos, um a mais do que ele.
Vera passa a ocupar sua mente e a povoar-lhe os sonhos todos os dias. Quer namorá-la, mas não sabe como conseguir. Consome horas pensando numa solução.
“Eu estava querendo namorar com você...”, imagina, dirigindo-se a ela. “Não, num está bom assim não; ela pode falar que eu sou feio. Vou só dizer: ‘Quem sabe damos uma passeada junto, Vera?’ Desse jeito é melhor porque se ela me acha feio, num vai falar.” Em seguida argumenta: “Mas eu queria é namorar ela!”
E assim ele fica, falando consigo mesmo, à procura de um modo de abordá-la. Não se sabe como surgiu essa história de que ele é feio.
...
Outro dia ocorre-lhe uma abordagem diferente. Vai fazer um galanteio, antes de pedir-lhe para namorar. “Eu acho você muito linda, acho que é a menina mais linda daqui e eu queria te namorar.” Esta fórmula lhe parece perfeita. E ele fica repetindo a frase dia após dia. “E se mesmo assim ela falar que eu sou feio e rir de mim?”, indaga-se aborrecido, certa feita. “Ah... já sei – continua falando consigo, agora com uma ponta de raiva –, se ela falar isso eu vou recitar uns versos do Almanaque que ela nunca mais vai esquecer:
"Rosa que estás na roseira
Sorrindo da minha desgraça,
Lembra-te que neste mundo
Tudo muda, tudo passa.”
Treina esta abordagem mais alguns dias. Quando se julga devidamente preparado para o sim e o não, sai resoluto em direção à casa da garota. Ao se aproximar, seu coração acelera, a respiração fica curta e a boca seca. Pensa em voltar, e em seguida resolve insistir. ...
...
Isso dura mais de um ano e começa a se esvair quando ele a vê com um jovem que aparenta ter dezessete anos. Mentalmente Joman sabe como resolver a disputa.
...
Medo de Si Mesmo
O distrito de Tumiritinga vive uma onda de progresso, devido à sua localização. O lugar se consolida como pólo de escoamento de madeira em tora ou serrada, e cereais de várias regiões vizinhas, principalmente do norte, onde a produção agrícola é excepcional. É também um lugar de chegada de mercadorias da capital do Estado, e do exterior, que entram pelo porto de Vitória, no Espírito Santo. A Estrada de Ferro Vitória a Minas, que no começo da década de quarenta passou da mão de ingleses para o governo brasileiro, integrando-se à Companhia Vale do Rio Doce, é o caminho que torna possível esse comércio.
Embora a mata atlântica da região esteja no seu final, Manoel decide montar uma serraria. Para tal constrói um imenso galpão de madeira, aberto dos lados, e nele assenta dois engenhos e dois conjuntos de serras circulares, movidos por motor próprio. Nela produz pranchões, tábuas, caibros e ripas. Ele passa a ganhar um bom dinheiro nesta atividade, ao lado do café que, após o término da Segunda Guerra Mundial, sofreu grandes aumentos nos preços internacionais.
...
O episódio não modifica seus
hábitos. Integrado ao
trabalho, ajuda na venda e a fazer
pães. Prefere o trabalho lá do fundo, de
fazer pães, a despeito de começar de madrugada, e que de há muito é de
responsabilidade exclusiva de Zezito. O
serviço na venda é penoso, pois ele tem de conversar com os fregueses,
argumentar; por isso arranja sempre um pretexto para sair durante o
dia. Às vezes vai para o quintal e passa
horas seguidas sentado debaixo de um pé de manga fantasiando, ou
curtindo ressentimentos e raivas, ou relendo o Almanaque.
...
Certa noite ele se encontra com o amigo Noel e recebe a notícia desagradável de que ele e a mãe vão se mudar.
– Mudar?... Você está falando de verdade? – no íntimo Joman torce para ser uma brincadeira.
– É. A mãe resolveu voltar pra roça, pra casa do meu vô.
– Que dia?
– Amanhã cedo.
–Mas eu vou ficar, assim, sem amigo? – indaga com certo desespero.
Naquela noite, na hora de dormir, sente um enorme pesar. De manhã bem cedo vai à casa do amigoe vê a mudança já quase toda num pequeno caminhão. Quando Noel e sua mãe se despedem e o caminhão parte, sente um vazio e tem vontade de chorar.Fica em pé olhando o veículo seguir numa estrada ribeirinha, rio acima, até desaparecer.
Uma profunda melancolia o invade. Vai para a margem do rio, senta-se num barranco, e o espelho de água inspira-lhe uma tétrica fantasia. Olha aquela vastidão de água e tem ímpeto de caminhar rio adentro, até não ter pé. Seguem-se o silêncio e a paz, que duram pouco tempo na sua imaginação, ... Volta para casa tão abatido como saiu e ainda confuso com a vontade que teve de pôr fim à sua vida. “Como fui pensar essa coisa? Morrer é ruim demais!”, diz para si mesmo. “Mas pra que serve a vida? Era melhor eu ter nascido uma minhoca, que não pensa, não sente essas coisa... Viver também é muito ruim.”
...
À noite fica muito abalado com os episódios do dia. Lembrase, com perplexidade, da fantasia que teve no barranco do rio pela manhã e da intensidade do ódio súbito que sentiu à tarde. “Gente, gente, eu estou em tempo de ficar doido!”, exclama, alarmado, em pensamento. Ele tem a impressão de que, se sair toda a revolta que carrega, pode ficar fora de si, pode ficar alucinado, e pela primeira vez tem medo de si mesmo. Nos dias que se seguem esse medo aumenta. “É pior do que ter medo dos
outros...”, constata com certo
horror.
Esperança que Vem Pelo Rádio
Na onda do progresso, Manoel compra um rádio, um aparelho enorme, que ao chegar causa muitas mudanças. A primeira é na disposição dos móveis da sala. A imagem da Virgem Maria, que fica num pedestal encostado ao centro de uma das paredes, é deslocada lateralmente. Uma mesa especial, de pés compridos, mandada fazer sob medida para o rádio, é colocada junto à mesma parede, de modo que a imagem sacra e o aparelho ficam lado a lado, mais ou menos no mesmo nível. As cadeiras são agrupadas junto à parede oposta. A pequena mesa de centro, que sempre tem flores frescas, é desviada para um canto, para facilitar o acesso ao rádio.
...
O rádio muda também a perspectiva do adolescente: o mundo lá fora, que chega por intermédio daquelas vozes e músicas, parece um mundo enorme, onde todos vivem felizes, um mundo oposto ao seu. Começa a acalentar o sonho de mudar-se, de viver naquele mundo, embora a princípio pareça um sonho absurdo, impossível de se realizar. Mas é estimulante pensar que lá ninguém vai chamá-lo pelo apelido detestável, ninguém vai indagar se ele atravessa mata-burro, ninguém conhece seu pai e ele não será ridicularizado por ser filho de Manoel da opa. Nessa época passa a escrever seu último sobrenome apenas com um O e um ponto – mesmo conhecendo em detalhes a promessa que seu pai fizera –, com o propósito de que, ao mudar-se, a omissão diminua o risco de rirem dele.
Sua adolescência continua solitária e infeliz. O medo de enlouquecer instala-se definitivamente nele e é maior do que todos os outros. “Só tenho salvação se sair daqui”, passa a dizer para si mesmo.
Começa a falar de seu desejo de ir para uma cidade maior, onde voltaria a estudar. Várias vezes ensaia mentalmente uma conversa para valer com os pais sobre o assunto, mas somente aos dezessete anos, num momento em que apenas os três estão juntos, isso se concretiza.
– Se tu queres estudar, tudo bem – começa Manoel a responder. – Mas se estás a pensar em negócio, um negócio próprio, é mais fácil começar aqui.
– Acontece que eu, assim, quero dizer – dá uma balançada nos dois braços para a frente e para trás –, acho que não gosto muito daqui, quero dizer, do lugar, da cidade, só da cidade. – O medo de ficar louco deixou-o ainda mais cauteloso para falar.
– Mas nós gostamos de ti – responde o pai, com voz embargada.
...
Na Zona do Meretrício
Nesse período
de sai, não sai, ele decide ir à
“Lagoinha”, a zona do meretrício, para ter sua primeira relação
sexual. Chega à noite ao conjunto
de casas, situadas dos dois lados da
linha da estrada de ferro, na extremidade
oeste, na saída para Governador Valadares. O local
é mal iluminado e o movimento de tanta
gente estranha o amedronta. Anda devagar numa das
ruas, próximo das casas, em cujas portas
ficam as mulheres.
– Ei, bonitão, vem cá! – convida uma delas. Ele dá uma parada, mas sente um medo terrível. Volta a caminhar. – Você tem cigarro? – pergunta outra. – Chega aqui, gostoso!
...
Vai para casa com a bela imagem na cabeça e, ao mesmo tempo, chateado. 'Nem com uma puta consigo?...', diz aos seus botões.
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Trechos de alguns capítulos do livro: (Clique e escolha os trechos que quer ler.)
Capítulo 1 - Fim Próximo
Vítima de uma doença incurável, Joman se prepara para morrer.
Capítulo 2 - Pregressos
Como o pai de Joman, um imigrante, conheceu sua mãe, como foi o casamento, qual foi o apelido que colocaram em seu pai.
Capítulo
3 - Paixão Atormentada
Nascimento de Joman, o caso extra-conjugal do seu pai,
os dramas dentro da família.
Capítulo 4 - A Luta
Começa uma luta entre o ativo Joman e sua aflitiva mãe. A dinâmica
do núcleo familiar.
Capítulo 6 - O Outro Mundo
A despeito dos temores, Joman escapa e vai viver em outra cidade onde
ninguém o conhece. Influência de sua timidez nas escolhas, como por exemplo, do trabalho.
As primeiras vitórias. A primeira namorada aos vinte e cinco anos. O casamento. os sofrimentos e
prejuízos causados pela timidez.
Capítulo 7 - Tremor nas Mãos
Antes dos trinta anos surge uma doença. A luta desesperada dele e da esposa em
busca da cura. A perda da esperança. Sua volta à terra natal para reviver
de modo diferente as experiências passadas e realizar seu último anseio: ser livre!
Os últimos quatro capítulos – mais da metade do livro – são adrenalina pura.
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