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A Luta



Começa uma luta entre o ativo Joman e sua aflitiva mãe. A dinâmica do núcleo familiar. O autor faz reflexões sobre a dinâmica da família.

Capítulo 4 – A Luta


(Informação: Três ponto (...) entre parágrafos indicam que outros parágrafos foram retirados; no começo ou final de parágrafo indicam que textos foram retirados daquele parágrafo)



Punições Físicas e Repressões que se Consolidam

A despeito de achar que sua dedicação aos filhos pode estar comprometendo o convívio com o marido, das Dores não muda neste particular. Ao contrário, os zelos aumentam de tal modo que se tornam atormentados. Receosa de que se machuquem, ou adoeçam, ela os mantém o tempo todo à sua volta. Risoleta participa desses cuidados, muitas vezes até cobrando maior vigilância da filha.

A vontade de das Dores é manter o filho e a filha mais velhos confinados em casa e no quintal delimitado por cerca de madeira; ou, no máximo, permitir-lhes ir à casa dos avós, ou brincar na frente das duas casas, sob seu olhar vigilante. Por outro lado, a vontade de Joman é exatamente o oposto: quer explorar o mundo ao seu redor. Ele parece uma pequena tocha, de combustível inesgotável.

...

Os dias na casa de Manoel são entrecortados por gritos nervosos de das Dores e choro de crianças, especialmente de Joman.

– Óia o que ocê feiz, seu artero! – grita ela um dia em que o garoto derruba a prateleira da cozinha, esparramando vasilhas, ao tentar subir para alcançar um doce. E completa a reprimenda com algumas chineladas.

– Ocê é muito malvado – queixa-se das Dores, em outra feita, tomando-lhe uma boneca de pano que ele acabara de pegar, depois de puxar os cabelos da irmãzinha.

– Ocê num tem cabeça, não? – pergunta, irritada, outro dia, quando ele entra em casa triunfante, segurando pelo pescoço uma galinha que se debate. – Sorta ela, disalmado! – grita, aplicando-lhe em seguida uns tapas na mão.

... Encontra-o trepado numa goiabeira a pouco mais de um metro do chão.

– Num tem jeito, ocê num me obedece mesmo; veve me passano susto – diz, entre aliviada e irritada, aos gritos.

Tira-o com certa violência e ali mesmo aplica-lhe várias chineladas, dizendo coisas como “Com ocê só amarrado”, “É muleque dimais”, “Toda hora desobedece sua mãe e sua vó”, sem dar ouvidos ao seu choro. Em casa a avó completa as reprimendas:

– Joman, Joman, ocê pode cair da arve e quebrar o braço. Pro mode quê ocê num obedece?

Qualificações de arteiro, mau, desobediente, estão definitivamente associadas ao pequenino Joman. Contudo, as depreciações, palmadas e chineladas são insuficientes para apagar aquela tocha, até que ocorre um fato mais dramático, pelo menos na visão de das Dores. ...

Quando Manoel assiste a essas cenas, mostra-se condoído e pede paciência à mulher.

– Com este muleque artero num tem jeito, é só cortano no coro – responde invariavelmente.

Ele, sempre que pode, leva as crianças à roça e, enquanto trabalha, elas se esbaldam por ali.

À noite, depois que as crianças dormem, das Dores tem sossego. É quando se volta para o marido, meiga e atenciosa, como era, o tempo todo, antes do nascimento de Joman. É até capaz de sustentar um diálogo sensato. Manoel quase sempre espera essas ocasiões para conversarem. Tem esperança de que a mulher mude com os filhos. Em uma dessas oportunidades retoma o assunto, uma vez que naquele dia ela aplicara uma surra no garoto por um motivo banal.

– Teus medos e aflições estão a prejudicar as crianças. Precisas mudar, das Dores, deixá-las mais livres... – começa.

– Eu cá acho que se acontecer arguma coisa com quarquer um eu indóido.

– Às vezes fico a pensar que na tua cabeça e na de tua mãe só existem as crianças em perigo. – Ela fica em silêncio, um silêncio de assentimento. – Já me disseram que quando eras criança ela tinha as mesmas aflições contigo.

– Num alembro...

– E que quando eras crescida, tu só ficavas dentro de casa.

– Isso eu alembro.

– Tu estás a repetir o que ela fez. E as crianças estão a ficar medrosas como tu.

– Eu queria tanto ser dispriucupada, Manoel... Ocê num sabe cumo que eu fico cansada...

– Imagino...

– Os fio dá muito trabaio.

– Quando criados com aflições. Sem aflições é um trabalho normal, ora pois!

...

– Falano assim parece face, mas aminhã... – retorna ela, a indicar que existe uma diferença entre pôr em prática o que lhe é sugerido e o que consegue fazer.

De fato, na manhã seguinte está ela com o “Num faiz isso!”, “Fica queto!”, “Num sai não!”, “Cuidado!”, “Se num obedecer apanha!” As palavras de Manoel ficam no vazio. E ele perde a fé naquela mudança por parte da esposa.

A luta entre mãe e filho começa a ser perdida por este, e antes dos cinco anos o ativo e intrépido Joman está com a aparência da luz de uma vela prestes a se apagar. Ele quase não sai e até ajuda a mãe nos afazeres domésticos. Outrora falante, passa a maior parte do tempo calado. Quando aparece alguma visita, pede a “bença”, tal como a mãe o ensinou, responde às perguntas com monossílabos, encosta-se a uma parede e, de boca aberta, acompanha as conversas. Fica de tal modo absorto que escorre saliva pela boca, molhando a camisa. Vez por outra, das Dores o repreende na frente das visitas:

– Fecha a boca, Joman!

Ele obedece. Mais alguns minutos e está babando de novo.

Que futuro aguarda esse garotinho?


Hiato

Parece que a meiga das Dores transformou-se numa megera e que Manoel é um fraco. Mas isso, talvez, não corresponda à realidade. A descrição sucinta dos acontecimentos que envolveram o pequeno Joman, transformando-o de menino ativo em uma tênue luz de vela, deixou de fora elementos importantes para um julgamento justo. Por isso, é necessário colocar pingos em alguns is.

E, por fidelidade aos fatos, é preciso destacar que das Dores é movida por um cuidado em relação aos filhos que surte resultado naquilo que é a fonte de suas preocupações: a saúde física deles. ...


São cabíveis algumas reflexões sobre Manoel também. Primeiro, lembrando que o seu grande amor pela esposa, associado à crença de que casamento feliz é aquele em que a esposa é feliz, tornou-o uma pessoa extremamente dedicada. Não se sabe como essa crença surgiu; é provável que tenha sido como a maioria: transmitida subliminarmente – de modo voluntário ou não –, no quotidiano. E seu pai pode ter desempenhado papel importante neste particular. ...


Com respeito ao pequeno Joman, é conveniente tornar claras algumas coisas que estão implícitas. O convívio com a mãe apresenta uma ambivalência. De um lado, das Dores transmite-lhe os medos que tem, reprime à força sua natureza ativa, sobrecarrega-o com julgamentos negativos; de outro, volta e meia tem um carinho para dar, em atos e palavras. Uma segunda ambivalência implícita encontra-se no núcleo da família, na mãe e no pai. Das Dores, sempre preocupada, cerceia-o pela força; Manoel, com sua paciência sem limites, dá todo o espaço que pode e mostra claramente seu desacordo com algumas condutas da esposa. De modo inverso,

...

Voltam as Barreiras

Em março de 1941 Manoel recebe uma notícia ruim do fazendeiro dono da várzea. Este lhe diz que, depois da colheita, completados os cinco anos de arrendamento, quer o terreno de volta. "Como será daqui para frente?", indaga-se com uma ponta de temor, e com razão. Ele dá dinheiro com regularidade para Florinda e, de quando em quando, à viúva de Zeca. A perda dessa renda com o arroz inverte as perspectivas: ele que vinha tendo sobras, e aumentando o gado, corre o risco de passar a ter faltas, de se descapitalizar. Como evitar que isso aconteça? E como fica o sonho de enriquecer-se no Brasil, acalentado durante a adolescência? É impossível sepultá-lo. Desistir do sonho é desistir da vida, e ele não é pessoa de entregar os pontos com facilidade.

Reflete muito sobre o assunto e conclui que chegou a hora de sair, de estabelecer-se em Cachoeirinha. Além da questão financeira e econômica, alimenta a esperança de que, longe de Risoleta, das Dores se torne mais amena com os filhos e, ainda, que eles freqüentem escola e tenham mais convívio com outras crianças. ...

– Num carece nóis se mudar– replica ela. – Ocê arruma otro negócio e o Joman entra na escola daqui mesmo.

– Aqui não tem escola, ora pois! Essa professora que tem aqui mal sabe ler e escrever. As crianças precisam freqüentar uma escola de verdade. Devemos pensar no futuro delas.

Das Dores fica apreensiva com a conversa. Sabe que o marido tem razão, mas alguma coisa no seu íntimo resiste. Procura a mãe no dia seguinte para relatar o propósito de Manoel.

– Fala que ocê num vai! – rebate Risoleta em tom enérgico. – Aonde já se viu morar num lugar iscumungado que nem aquele? Tem trem, tem rio, tem cavalo correndo nas rua, e todo dia tem gente matada. – Faz uma pausa e pergunta em tom dramático: – Ocê quer ver seus fio morto? Alejado?

– Ele fala que tem a escola...

– Dexa de ser boba. Se ocê falar que num vai, ele tomém num vai.

Das Dores segue o conselho da mãe. Mais uma vez o marido se dobra e adia a mudança.

...

Todas as vezes que passa pela estrada, dá uma chegada na casa da viúva, ouve seus queixumes e, penalizado, sempre lhe arruma algum dinheiro.

No início de 1942, alertado pelo começo do período letivo, Manoel volta ao sonho da mudança, mas das Dores finca o pé. Ela retruca dizendo que não adianta se mudarem agora porque Joman só vai fazer 7 anos em agosto, idade mínima para entrar em uma escola regular.

– Mas eu posso cuidar de estabelecer o comércio este ano – replica.

– Eu morro naquele lugar, num vou ter sussego. Deixa pro ano que vem, dexa?... – suplica ela, qual uma criança quando pede algo ao pai complacente. – Aí ele vai tá mais grande.

Outra vez o amor se curva à razão.

Mas Manoel tenta um acordo: colocar o filho, já, para freqüentar as aulas na casa da tal professora, situada a três quilômetros do sítio. Quer que ele comece a conviver com outras crianças, pois no sítio brinca no máximo com os primos e, mesmo com estes, só na presença de das Dores. Acredita até que vai ser bom para o filho ficar afastado da mãe e da avó numa parte do dia – se, de uma lado, a tal professora tem pouco para ensinar, de outro, aquela convivência poderá torná-lo mais ativo. Não revela tais pensamentos à esposa, para que ela não se sinta ofendida. Usa como argumento a necessidade do garoto aprender a ler e a escrever, e que ela, das Dores, havia dito, no ano anterior, que os filhos podiam entrar na “escola” da região.

– Essa lonjura toda, cumo que ele vai andar isso tudo? – replica ela, levantando dificuldade.

– Já pensei nisto também. Para que fiques sossegada, o Zezito vai levar e buscar todos os dias na garupa de um cavalo.

Das Dores cede a contragosto.

O primeiro dia de aula é um suplício para a aflitiva mãe. À saída, faz repetidas recomendações a Zezito para ir andando devagar, jamais trotar, e nem em sonho galopar. Assim mesmo, fica em casa imaginando coisas dramáticas – ora o rapazinho não segue as instruções e, na sua mente, vê o filho caindo; ora, a um descuido da professora, Joman sai da casa onde são dadas as aulas e se embrenha pelo mato. ...

Por outro lado, o garoto mostra um interesse incomum em aprender. Quando está em casa, fica horas lendo a cartilha e fazendo cópias na lousa – um minúsculo quadro negro com moldura de madeira – com um giz achatado e resistente.

Um dia, no primeiro mês de aula, é o próprio Manoel que leva o filho. Aproveita para conversar com a professora.

– Como está a se sair o Joman?

– Ele aprende fácil, mas é muito queto, num brinca no recreio, parece triste – responde a professora.

– Mas ele gosta de vir. Creio que com o tempo vai passar a brincar.

Contudo, o tempo mostra que Manoel está equivocado. O máximo que o garoto faz é ficar, durante o recreio, olhando os colegas brincar. Prefere mesmo andar à volta da casa, observar animais, pegar borboletas ou bichinhos nas plantas.

...

No final de 1942 ele decide enfrentar a resistência da esposa, a fim de se mudarem. Opta em definitivo por Cachoeirinha, que desde 1938 é distrito. É lá que vai, com mais regularidade, vender e comprar, e assiste ao seu intenso progresso. Por outro lado, a zona urbana já não se apresenta como lugar onde corra maior risco de ser preso do que na roça. E desta vez não consulta a esposa – simplesmente comunica sua decisão.

– Mas Manoel... – ele a interrompe.

– Lembre-se do que me prometeste. Já não posso esperar mais.

– O que ocê vai fazer lá?

– Vou montar uma padaria, ora pois! – responde com animação. – Lá não tem nenhuma. É freguesia certa. E vou ganhar mais dinheiro no negócio do café. Aqui estou no meio do caminho: não é onde se compra e nem onde se vende. – Faz uma pausa e prossegue: – Eu vou primeiro, ponho-me a construir a casa e mudamos quando estiver pronta. Todos os sábados à tarde virei aqui.

...

No calor dos preparativos, elabora um plano para não só continuar com o comércio do café, mas também aumentar sua escala. Procura o compadre José Vítor e propõe que ele venda seu pequeno pedaço de terra e compre outro próximo de Cafezinho ou Itanhomi, e se torne seu comprador lá. Nas épocas de colheita, deverá comprar e estocar, como ele próprio fez nas duas últimas, porém em maior escala. Cuidará também do transporte para Cachoeirinha e receberá uma porcentagem do lucro. Depois de ouvi-lo com interesse, José Vítor responde:

– Uai, cumpadre, a idéia é boa. Eu tô mesmo massano barro aqui. E o negócio de café, sendo muito, é bão.

– E tu ainda vais me fazer o favor de dar assistência à Florinda e ao menino. Com a minha mudança ficará mais difícil minha ida lá. – Faz uma pausa e acrescenta: – Acho que nem precisava dizer, mas esse assunto fica só entre nós dois.

Eles detalham o acordo. Na safra que vai começar em maio, José Vítor já estará fazendo as compras e transportando. Manoel, além de fincar o pé em definitivo nesse comércio, uma vez mais, unirá negócios e sentimentos.




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Trechos de alguns capítulos do livro: (Clique e escolha os trechos que quer ler.)


Capítulo 1 - Fim Próximo


Vítima de uma doença incurável, Joman se prepara para morrer.


Capítulo 2 - Pregressos


Como o pai de Joman, um imigrante, conheceu sua mãe, como foi o casamento, qual foi o apelido que colocaram em seu pai.


Capítulo 3 - Paixão Atormentada


Nascimento de Joman, o caso extra-conjugal do seu pai, os dramas dentro da família.


Capítulo 5 - Reveses da Vida


Jomam começa a conviver com outros meninos e a freqüentar a escola, e sofre as primeiras decepções fora de casa. O sofrimento dos primeiros anos, a paixão oculta na pré-adolescência, as dificuldades em se ajustar, as angústias, as humilhações, os esforços desesperados para conseguir conviver com es outros e ser respeitado, assim como os perigos, são temas deste capítulo, o qual alcança até a idade dos dezoito anos.


Capítulo 6 - O Outro Mundo


A despeito dos temores, Joman escapa e vai viver em outra cidade onde ninguém o conhece. Influência de sua timidez nas escolhas, como por exemplo, do trabalho. As primeiras vitórias. A primeira namorada aos vinte e cinco anos. O casamento. os sofrimentos e prejuízos causados pela timidez.


Capítulo 7 - Tremor nas Mãos


Antes dos trinta anos surge uma doença. A luta desesperada dele e da esposa em busca da cura. A perda da esperança. Sua volta à terra natal para reviver de modo diferente as experiências passadas e realizar seu último anseio: ser livre!



Os últimos quatro capítulos – mais da metade do livro – são adrenalina pura.




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