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Paixão Atormentada


Nascimento de Joman, o caso extra-conjugal do seu pai, os dramas dentro da família.

Capítulo 3 - Paixão Atormentada

(Informação: Três ponto (...) entre parágrafos indicam que outros parágrafos foram retirados; no começo ou final de parágrafo indicam que textos foram retirados daquele parágrafo)



A Família Cresce


O jovem casal vive a expectativa da vinda do primeiro filho. Decorridos mais de quatro meses do casamento, a notícia chega para Manoel na noite de 24 de dezembro, após sua volta de uma reza de Natal, dada de modo cândido por das Dores:

– Tô esperando um neném.

Ele, que acaba de chegar e entrar em casa antes de desarrear o cavalo para tirar a opa e vestir uma capa, já que foi apanhado no caminho por uma fina e persistente chuva, fica alguns segundos mudo e quase sem fôlego, fitando a esposa.

– Tu tens certeza? – pergunta finalmente.

Das Dores, de pé a pouco mais de um metro, balança a cabeça e sorri alegremente.

Manoel se atira, abraça-a – riem ambos –, ergue-a presa pela cintura, dá um giro no ar e exclama exultante: – Vou ser papai! Vou ser papai! – Em seguida olha-a enlevado, ainda envolvida pela cintura, e retoma: – A Virgem Maria me ouviu, ela sempre me ouve. – Ao dizer isto exibe aquele brilho nos olhos, próprio das pessoas que acabam de ter confirmação da sua fé. – A Santíssima me ouviu, podes crer, das Dores! Ela manda o sinal agora, na noite do nascimento do menino Jesus, e depois da reza! Não é de impressionar?

...

Mas para haver batizado é preciso existir a capela. E a sua construção, que foi adiada por causa das chuvas, precisa começar já.

Lidera a comunidade num mutirão para a obra. ... O local escolhido é bem em frente à casa de Manoel e do outro lado da estrada.

...

No início de agosto, antes de completarem um ano de casamento, sua esposa entra em trabalho de parto, um parto laborioso, demorado, no qual ela sente tantas dores que chega a pensar que vai morrer. Manoel acompanha o desenrolar, sob intensa angústia, e com preces permanentes à Virgem Maria, na capela, aos pés da imagem santa, ou junto ao leito. Num dos momentos de maior desespero, quando está na capela, faz uma promessa pela vida da esposa e da criança. Suas súplicas são atendidas e a criança nasce, nasce berrando, aparentemente em protesto pela demora. É um menino saudável, que enche o pai de orgulho porque o rosto, a despeito de amassado em algumas partes e inchado em outras, tem muitos traços seus.

Na primeira vez que o jovem casal conversa sobre o nome do menino, o orgulhoso pai diz o que tem em mente: – Estou a pensar em Manjo.

Explica que o nome resulta da fusão das duas primeiras sílabas do seu nome e do de seu pai, que se chamava Joaquim.

– Manjo?... Isso num é nome de minino não. Home chama é Zé, Antonho, Pedro, Mané, quer dizer, Manoel, Quinzim... Manjo? Eu cá nunca vi!...

Ele insiste, diz que é uma homenagem que presta a si e a seu pai, mas a esposa continua achando inapropriado.

A idéia de dar o nome 'Manjo' é antiga. Ainda no Rio de Janeiro, ouviu um diálogo em que uma pessoa a certa altura indagou à outra: 'Você manja disso?' para saber se ela entendia de um dado assunto. 'Manjo', foi a resposta. Manoel encantou-se não apenas pela união das sílabas, mas pelo seu significado, de uso apenas no Brasil. 'Manjo, Manjo, Manjo, Manjico...', repetia ele, de quando em quando, deliciando-se também com a sonoridade. Acabou decidindo que, se um dia tivesse um filho, lhe daria esse nome.

Maria das Dores pede a ajuda da mãe, pois percebe que está difícil mudar a cabeça do marido. O pai e os irmãos também entram no assunto, mas o impasse perdura durante algum tempo. É resolvido quando apelam para José Vítor, seu único amigo, e cujas opiniões ele leva em conta.

– Manoel da opa, a gente tem de arrespeitar os mais véio – começa o amigo, com um argumento previamente estudado. – O respeito tem de ser premero com seu pai. Chama o minino de Joman.

...

Agora é tempo de cuidar do batizado.

Manoel lidera um movimento na comunidade que leva um padre pela primeira vez àquela região. Depois de benzer a capela, ele reza uma missa, e quando recolhe os nomes completos das crianças para os batismos Manoel, sem consultar ninguém, dita:

– Joman de Oliveira Opa.

José Vítor e a esposa Matilda, tratada por Tilda, são escolhidos para padrinho e madrinha, a maior prova de amizade que se pode dar. No momento em que o menino está sendo batizado é que das Dores toma conhecimento do sobrenome Opa. À saída da capela, com o filho no colo, ela exprime seu desagrado: – Isso é nome da capa, num é nome de gente, Manoel.

Ele dá seus motivos: – Quando Joman estava para nascer, cheguei a pensar que tu e a criança iam morrer. Então eu fiz uma promessa à Virgem Maria: se tu e ela se salvassem, todos os meus filhos receberiam o sobrenome Opa. E é graças a essa promessa que estamos todos juntos e felizes aqui hoje.

Surpresa com a revelação, a jovem mulher desanuvia o semblante e comenta: – Intonces o nome tá bem dado.

...

Das Dores dá à luz uma menina em julho de 1936, quando Joman tem onze meses. Se por um lado isto a deixa alegre, porque ansiava por uma filha, por outro aumenta suas preocupações com o menino. Ele está dando os primeiros passos, é muito ativo e exige cuidados para que não se machuque...

O crescimento da família o leva a pensar em ganhar mais dinheiro. ...Após algum tempo de observações, constata que o arroz é dos itens que mais pesam nas compras que fazem em Cachoeirinha, posto quase ninguém plantá-lo nas redondezas. Vislumbra aí a alternativa que procura. Conversa sobre o assunto com o compadre.

– Arroiz tem de ser ni terra incharcada – começa José Vítor explicando. – Agora, que é bão, é bão. Se arranjar uma terra boa, vende tudo por aqui mesmo.

– Tu sabes de alguma?

– Eu cá sei, só num sei se o dono vende. Ele planta arroiz só num pedaço, mas num é todo ano não.

...

Florinda, a Tentação

...

– Estou a pensar em plantar arroz – começa Manoel –, e o senhor tem aquela várzea que me interessa. O senhor a vende?

– Vendo não. Preciso dela pra isso mesmo.

– Mas estou a ver que ela quase não tem uso...

– Mas eu cá num vendo não.

–As veiz o senhor arrenda ela – sugere José Vítor.

O velho aceita discutir o arrendamento, e eles chegam a um acordo. O direito de uso será de cinco anos, e Manoel pagará uma pequena importância depois de cada colheita.

Ele precisa de trabalhadores com experiência no cultivo do arroz. Aproveita a oportunidade para saber se os encontra por perto. – Tem uns agregado aí que intende – informa o fazendeiro. Depois de receber as indicações de duas casas, os compadres vão até lá.

Na primeira mora Zeca, um homem forte que, ao ser inquirido se quer o trabalho, mostra logo ser de poucas palavras.

– Quanto que ocê paga?

– Dez tostões por dia, está bom?

– Tá não! – responde rispidamente. – Vou por mil e quinhentos réis.

...

Na casa seguinte, encontram dois irmãos negros – uma moça, Florinda, e um rapaz, Abidias. É a jovem que toma a iniciativa da conversa. Diz que a várzea é muito fértil e que ele, Manoel, vai ganhar dinheiro lá. Ao falarem do salário ela informa: – Aqui nóis trabaia por mil e quinhento os home e mil as muié.

Manoel olha para o compadre e balança os ombros.

– Está bem. Vamos começar logo.

– Já tá passano da hora – adverte a jovem. – Tem de prantar em outubro pro mode que ni dezembro lá enche de água.

– Vão os dois?

– Os dois. Tamo parado mesmo – de novo, ela.

– Então fica combinado para segunda-feira.

A jovem ainda faz recomendações sobre as ferramentas necessárias no começo. Os dois voltam à casa do tal de Zeca e seu serviço é contratado também.

A caminho de casa, Manoel comenta: – Que negrinha esperta! você viu, compadre?

– Ela é danadinha. E saída... vai falano e resorveno.

– E sabe o que fala.

...

Devido à distância, para não perder tempo nas idas e vindas diárias, resolve fazer o trajeto no seu ágil cavalo branco.

Na segunda-feira ele chega cedo, entrega as ferramentas aos três trabalhadores que já o esperam, tira o arreio, guarda-o na palhoça e põe o cavalo para pastar nas proximidades. Na volta indagalhes sobre a melhor forma de tocar o serviço. A jovem toma a dianteira: – Tem de começar capinano essas parte rala daqui e roçar aquele mato lá, e despois arrancar os toco – diz ela, mostrando com gestos. – Nóis divede: uns capina, outros roça e tira os toco.

– É preciso arrancar os tocos?" – pergunta Manoel.

– Percisa – volta ela –, pra mode passar o arado, e num atrapaiá nóis quando tiver cheio d’água. Vai ter que cunsertar aquela barrage lá – aponta para um amontoado de terra numa extremidade do terreno – pra segurar a água, porque arroiz gosta de água no pé e sol na cabeça.

Manoel examina a área com os olhos, ao mesmo tempo em que pensa, admirado, no interesse e na boa vontade que a jovem demonstra.

...

Manoel tenta raciocinar, mas não consegue – seus olhos ficam fixos na jovem. Ela espera a resposta, mas, ao notar seu olhar insistente, abre um sorriso matreiro, alegre, que exibe dentes alvos e olhos que brilham qual ônix lapidado. Os cabelos crespos e a face graciosa completam a imagem que parece hipnotizá-lo. Os olhos de Manoel escorregam pelo corpo abaixo, passando pelos seios fartos e firmes, a cintura delgada, o quadril bem torneado, a pequena parte das pernas que o vestido longo, de chita, permite ver, e chegam aos pés rudes, fortes, que calçam chinelos toscos. Ele se esforça, desvia os olhos e, ainda sem conseguir raciocinar, responde de modo automático:

– Não me parece mal. Vamos.

Florinda toma a dianteira e ele volta a fixar os olhos no corpo que caminha à sua frente, exibindo um traseiro ondulante. Pela cabeça passam-lhe pensamentos obscenos. Faz o sinal-da-cruz. 'Santíssima, por que tenho de aspirar sempre mais?', indaga com certa tristeza, lembrando-se do quanto é feliz e realizado com a esposa.

Os dois começam a capina lado a lado, e de vez em quando ele lança um rápido e furtivo olhar sobre a jovem. O balanço daquele corpo, quando ela bate com vigor a enxada no solo, parece-lhe um estremecimento de prazer. Faz o sinal-da-cruz várias vezes. 'Santíssima, por que tenho de aspirar sempre mais?'

...

Tenta pensar no sítio, no serviço que o aguarda quando chegar depois das quatro horas da tarde, e se distrai um pouco. E, sem perceber, aquele sorriso matreiro lhe vem à mente, como um retrato. 'É uma praga!' Faz o sinal-da-cruz. 'Santíssima...'

...

Não demora, aqueles seios fartos e firmes se agitam na sua mente. 'Maldição!' Faz o sinal-da-cruz. '...por que tenho de aspirar sempre mais?'

Rememora sua chegada ao sítio pela primeira vez e se distrai com o encantamento que das Dores lhe causara. Lembra-se de detalhes, inclusive dos momentos em que ela tirava os chinelos e pousava sobre eles os pés delicados. E então lhe vem à mente a imagem dos pés rudes que compõem a beleza selvagem desta jovem, beleza de fêmea em cio permanente, à espera de um homem, macho como ele. 'Sai, Satanás!'

O pobre homem passa a manhã nessa luta interna. ...

Na mesma tarde vai para a capela e começa a expiar seus pecados. Dobra as calças até acima dos joelhos, derrama caroços de milho no chão, ajoelha-se sobre eles, estende os braços para os lados em forma de cruz.

– ...Virgem Santíssima, perdoa os meus pecados e me livra dessa tentação... – e prossegue, diante da imagem santa adornada por jarros de flores plantadas e colhidas pela esposa.

...

– Que que é isso, sô Manoel? – indaga ela, simulando surpresa, ao mesmo tempo em que faz um movimento para juntar seu corpo ao dele.

Qual um garanhão possesso, ele a deita sobre o coxinilho e a possui freneticamente.

– Agora eu é só sua – diz ela, um tanto enigmática, com voz relaxada, quando descansam.

...

A certa altura, diz ele a Florinda: – Estou a pensar num lugar seguro para nos encontrarmos.

– Eu cá sei de um...

– Qual, qual?

– Hoje, quando nóis acabar, vou na frente na tria e espero o sinhô.

...

Mas, como nem tudo são flores na vida, num dos encontros a jovem negra faz uma revelação. – Sô Manoel, o Zeca tá discunfiado...

– Por quê?

– Eu cá num seio... Acho que é pro que num tô querendo mais abrir as perna pra ele.

– Tu tinhas um caso com aquele gajo? – Ela balança a cabeça. – E já o largaste? – Ela demora um pouco, mas volta a balançar a cabeça.

– Quando o largaste?

– Despois que eu cá conheci o sinhô.

Manoel fareja problema no ar. Os dois estão sentimentalmente ligados e existe um homem mordido de ciúmes no meio. Pensa em tomar uma providência qualquer, para afastar um eventual perigo, mas, como sói acontecer na maioria dos casos, fica apenas na intenção.

...

Tocaia

...

E é nesse astral tão elevado que, subitamente, Zeca, de tocaia numa curva, aparece com um porrete de mais de metro de comprimento e, antes que Manoel entenda o que se passa, aplica-lhe uma bordoada nas costas, mais para o lado do flanco esquerdo. Com o susto e a pancada, ele solta a rédea, ao mesmo tempo em que toca o ventre do cavalo com a espora. O animal dispara. Desequilibrado, meio de lado, com os pés fora dos estribos, tenta acertar o corpo segurando-se no cabeçalho da sela e na longa crina. Não consegue, percebe que vai cair. Decide pular para evitar uma queda pior e o atropelo. Salta, mas assim mesmo cai desengonçado, esparramando-se e revirando-se no solo duro e em pequenos arbustos à beira da trilha. Quando consegue se situar no espaço e começa a ajeitar o corpo, Zeca chega correndo com o porrete.

Numa fração de segundo Manoel percebe que sua cabeça será partida. Faz um esforço extremo, dá um salto e intercepta o golpe. Os dois caem, Manoel fica por baixo e, quando sente que a força de Zeca está superando a sua pela posse do porrete, mantém a mão esquerda fazendo resistência, e com a outra, num movimento rápido como o raio, puxa a faquinha da cintura e aplica-lhe um golpe no pescoço. O sangue esguicha. Num primeiro momento, os dois se olham, perplexos, segurando o porrete, agora sem fazerem força. Em questão de segundos, Zeca tomba ao seu lado, enquanto o sangue continua a jorrar.

Aturdido, exausto, doído, Manoel ergue-se com dificuldade. Ao ver a cena de pé, fica desesperado e, mancando um pouco, caminha em torno de Zeca.

– Ai, ai, Virgem Santíssima! O que foi me acontecer?! Ai, ai, ai, meu Deus! ai, ai, ai. – Faz o sinal-da-cruz repetidas vezes.

O sangue que continua a jorrar forma uma grande poça. Zeca ainda se remexe, se estrebucha, depois pára. Manoel, em crescente desespero, bate a cabeça contra o tronco de uma árvore várias vezes, enquanto lamenta: – Ai de mim! Ai de mim!

...

– Compadre, compadre! – grita ao chegar.

Segundos depois a porta se abre, José Vítor aparece com uma lamparina na mão, logo seguido pela mulher e dois filhos pequenos.

– Cumpadre Manoel, é ocê? – indaga, afastando a lamparina para o lado, para enxergar melhor.

– Sim, sou eu.

– Ocê aqui essa hora?... Acaba de chegar.

– Não, obrigado – responde, contendo a aflição. – Eu caí do cavalo e estou ferido.

– Intonces apeia, cumpadre! – insiste José Vítor com aquela sua voz afável e cadenciada.

– Não, obrigado. Eu só queria que me acompanhasses até em casa porque estou a sentir muitas dores.

...

Continuam a conversar e, quando chegam à trilha principal, Manoel pede que o amigo pare. E todo o seu desespero vem à tona. – Aconteceu uma coisa terrível compadre, ai, ai, ai, terrível!... O Zeca, aquele gajo que trabalhava para mim tentou me matar. E eu acabei por matá-lo! Ai, ai, ai!

– Num diga, cumpadre!...

– Ai, ai, ai, compadre, o que vai ser de mim? Por que havia de acontecer logo comigo? Ai, ai, ai. – E continua a se lamentar. Alguns segundos após o impacto José Vítor retorna: – Acarma, cumpadre. Me conta cumo que foi.

...

Podia Ser Um Pesadelo


Em casa Manoel encontra das Dores aflita. Fala-lhe rapidamente da queda e evita expor-se a uma claridade maior.

– Ocê tá machucado?

– Não a ponto de que te preocupes. Preciso apenas que me arrumes um pouco de água com sal para passar depois do banho.

Pega rapidamente uma ceroula limpa, um lampião e vai para o córrego. Lava-se bastante, depois lava a roupa, que tem ainda muito sangue. ...

Deita-se, mas não consegue dormir. A cena, com todo o seu horror, passa e repassa pela sua mente – a súbita bordoada, o cavalo em disparada, ele pulando, Zeca à sua frente com expressão de ódio, o porrete erguido com as duas mãos, a luta e, de repente, o sangue esguichando. 'Podia ser um sonho... um pesadelo...'

É uma noite infernal. 'Nem rezar consigo', constata com arrepios. Os tormentos são tais que começa a duvidar até de José Vítor. 'Para que fui lhe contar? Agora minha vida está nas mãos dele!' ‘Manoel é o criminoso! Manoel é o criminoso!’, grita repetidamente a turba liderada pelo compadre. Um soldado marcha à frente. 'Podia ser um sonho... um pesadelo...'

...

Em casa, Manoel pega Joman no colo, aproxima-se do compadre e diz ao filho: – Pede a bênção ao padrinho.

O garoto estende a mão direita.

– Bença, padim.

– Deus te abençoa. Tá cada veiz mais isperto, hein?

– Está a falar qual um papagaio – comenta Manoel.

– Artero, que só ele – atalha das Dores, em tom de queixa, enquanto serve o café. – Dá trabaio o tempo todo. Mexe ni tudo.

– Criança é assim mesmo, cumadre.

...

Decorridos trinta dias da tragédia, ele procura a viúva. Precisa saber como está vivendo e o que pensa.

– Estou triste com a morte do seu marido – começa Manoel.

– Ele tava com muita raiva do sinhô... – diz ela levantando suspeita. – Pro mode quê?

Ele se assusta e arregala os olhos.

– Não sabia, minha senhora – responde, gaguejando ligeiramente. Ficam em silêncio. Ele retoma, inventando uma justificativa: – Um dia reclamei que ele estava lento no trabalho. Talvez esta tenha sido a razão. Ele se aborrecia com pouca coisa.

Mais um curto silêncio, e continua: – A senhora deve estar a passar dificuldades...

– Tá difice mesmo. Os minino tão piqueno.

– Estou a pensar numa maneira de ajudá-la. Afinal, seu marido trabalhou para mim até uma semana antes.

– Eu cá preciso de trabaiá pra dá de cumê pras criança.

– A senhora pode trabalhar no arrozal, no lugar do seu finado marido. Até a ocasião dos serviços vou lhe pagar mil réis por semana para a senhora olhar o arroz que está guardado na palhoça. Aquele arroz vai servir de semente para o próximo plantio. Queres?

– Eu quero, uai!

Manoel a conduz à palhoça e sai de lá satisfeito. ...


Definitivamente Ligados

Na primeira vez que ele e Florinda ficam juntos no relvado, após toda a tragédia, a jovem está um pouco calada.

– O que tens, minha boneca de ébano? – indaga a certa altura.

– Minha doença do meis num veio...

– Não veio?... – Dá um meio sorriso e exulta em seguida. – Então vou ser papai de novo? Que maravilha!

Florinda se assusta com esta reação. Ela esperava um xingatório, o abandono, ou, na melhor das hipóteses, uma indiferença. Leva alguns segundos para se recuperar e dá, por fim, um sorriso meio amarelo.

– Será menino ou menina? – volta o entusiasmado português, deitado ao lado, cotovelo na grama, cabeça apoiada na palma da mão, sorrindo. – O que tu achas?

– Eu cá num seio – replica, ainda sem participar da animação dele. – Tô priucupada....

– Não te preocupes. Não vou te deixar faltar coisa alguma. Vou registrar a criança! – conclui, olhando-a, torcendo para que o sorriso franco volte.

– Eu cá tô com medo.

– Não há motivo para temeres. Apenas não vamos dizer que a criança é minha. – Faz uma pausa. ...

...

Entretanto, quando o ventre de Florinda se avoluma, circula pela comunidade, à boca pequena, que Manoel é o pai da criança. Circula também uma conversa de que ele dá uma ajuda financeira à viúva do Zeca. Um sujeito, conhecido por sua maledicência, comenta com todos que encontra:

– O Manoel da opa é um trem doido. Dá conta de treis muié e ainda trabaia que nem um burro de carga.

Os comentários ganham mais força na época de preparo da várzea e do novo plantio do arroz. Ele contrata mais dois homens e destina às duas mulheres serviços leves. A viúva, que também está grávida, e Florinda gozam de privilégios: podem ir em casa quando precisam, não sendo necessário avisar a quem quer que seja. A viúva abusa da permissão, enquanto Florinda raramente se afasta do serviço.

As relações dos três cunhados com ele azedam. No início passaram por cima dos rumores de que Manoel tinha um caso com Florinda. Mas agora é diferente: ela carrega um filho e, para piorar, existe outro caso com a viúva do tal de Zeca. Os três irmãos articulam um encontro com ele no sítio, em local mais afastado, sem avisá-lo, e cada um dá seu recado.

...

A vida continua, e a comunidade vive a expectativa do nascimento da criança.


Separação na Família

Em dezembro de 1937 Florinda dá à luz um menino, e a notícia corre rápido.

É um mulato que tem a cara do Manoel da opa – cochicham, em tom de fofoca.

...

Nesse mesmo dia, Manoel e dois trabalhadores estão, como nos demais dias dessa época, ocupados nas tarefas de arrancar ervas esparsas que resistiram à inundação da várzea, em controlar a vazão da água e desobstruir áreas para garantir uma irrigação uniforme. À tarde, quando se prepara para ir embora, Manoel indaga a Abidias, um dos trabalhadores, como estão passando Florinda e a criança.

– Tão bem – responde timidamente, como é seu jeito.

– Quero que me digas se está a faltar alguma coisa.

– Tá não. – Faz uma pausa e balbucia: – Meu pai... – não conclui.

– Teu pai, o quê?

– Ele... – volta vacilante – ele tá triste pro causa das coisa ruim que o povo tá falano...

Manoel sente um aperto no coração. É desnecessário fazer mais perguntas ao jovem e humilde Abidias. Ao voltar para casa, toca o cavalo em passo miúdo. Imagina que Florinda também sofre humilhações e sente-se responsável. Pensa no futuro do filho – que ainda nem conhece –, criado em tais circunstâncias. Precisa encontrar uma saída para esse problema.

...

No dia seguinte, quando está escurecendo, Manoel, já de volta, antes de chegar ao sítio, pega outra trilha que também leva à região onde mora Florinda. Chega à casa dela quando já é noite. A primeira coisa que faz é pedir para conhecer o filho.

Florinda o tira de um balaio, suspenso por cordas amarradas ao madeiramento do telhado. Manoel, assentado, recebe a criança e a põe no colo. Sua emoção não é expressa em palavras, mas no longo silêncio de embevecimento em que fica olhando para o bebê, sob a luz de uma lamparina. Depois informa a todos: – Estou a pensar que é preciso sair daqui. O melhor lugar que encontrei é perto de Itanhomi. O que acham?

– Eu cá acho que vai ser um discanso – responde Chico, pai de Florinda.

– Então, preparem-se. Depois de amanhã, antes do sol nascer, estarei aqui com a tropa para levar a mudança.

Prossegue a viagem para casa, pela outra trilha, usada habitualmente.

Sua chegada é um alívio para das Dores que, contudo, não ousa indagar-lhe o que planeja. Teme ouvir do marido que sua decisão seja ir-se embora.

...

A comunidade toma conhecimento da mudança de Florinda, porém de forma distorcida. E a notícia corre.

– O Manoel da opa largou a das Dores! – comentam uns com os outros, excitados, naquele estado próprio das pessoas que se deliciam com a desgraça alheia.

Como em qualquer comunidade do mundo, nesta também existem os que querem ver o circo pegar fogo. Especialmente se o fogo está atingindo gente bem-sucedida, seja em que área for. Um peão, ao cruzar com Cândido na estrada, no mesmo dia, comenta, jogando lenha na fogueira:

– Que coisa, hein Cândido! o Manoel da opa tá tão caído pela Florinda que foi simbora levando inté a famia e a mudança dela, numa tropa de todo o tamanho.

...

– Sei não... Acho que num carece. Ele vai vortar – replica das Dores.

– Vortar?... – retorna Cândido, indignado. – Será que a minha irmã num tem vergonha? – E dá um ultimato, gritando: – Se ele vortar argum dia e ocê quiser ele, eu vou simbora, tá avisada. Se ocê num tem vergonha, eu cá tenho. Já avisei e tá avisado!

Das Dores começa a chorar.

– Mamãe! Mamãe! – exclama Joman ao lado.

– Mamã! Mamã! – faz coro Belma.

...

Manoel, por outro lado, está viajando com a família de Florinda. Ela vai montada num cavalo com a criança, a mãe no outro. O irmão e o pai seguem caminhando. A mudança vai nos animais de carga. Ao fim de dois dias chegam a uma fazenda perto de Itanhomi, cujo proprietário, chamado Tonico, concordou em acolher a família numa pequena casa que está desocupada. Manoel fica ali três dias, durante os quais toma providências para que se sintam acomodados e seguros. Deixa-lhes uma quantia em dinheiro e avisa que periodicamente enviará mais. Combina com Tonico para que este lhes preste assistência nos primeiros dias de adaptação. Seis dias depois de ter saído do sítio, está de volta.

Nesse período, as três cunhadas se revezaram em permanente companhia a das Dores. Ela, que sabe a falta que o marido lhe faz, recebe-o com alegria, mas também com preocupação.

– Manoel, num sai de casa não, o Cândido tá muito arrevortado.

– O que está ele a dizer?

Após alguns segundos de silêncio, responde baixinho: – Falou em te matar... Despois em ir simbora.

Ele acha prudente seguir a advertência da mulher.

Cândido cumpre a promessa. Ao ver que o cunhado voltou e foi recebido pela irmã, monta um cavalo e vai a Cachoeirinha. Aluga um caminhão, volta e põe nele a mudança e a família. Segue para Figueira do Rio Doce. ...

...

A assistência financeira a Florinda é dada mensalmente, de modo sigiloso, por intermédio do compadre José Vítor, que atua como portador. Ele traz, naturalmente, notícias de Florinda e do filho. E as notícias, sempre boas, aumentam a saudade que Manoel tem deles. Isso o leva a idealizar uma forma de assisti-los pessoalmente, sem causar constrangimentos a das Dores e a sua família, e, de quebra, ganhar mais dinheiro: comprar café na região e revendê-lo em outra.

Em maio de 1938 nasce Peri, nome dado em homenagem a Pedro, o sogro, e Risoleta. O sobrenome é também Oliveira Opa. ...

A essa altura Joman está com quase três anos, tem uma atividade impressionante e recebe as primeiras chineladas – Pra aprender a obedecer, diz das Dores. Curioso, mexe em tudo que está a seu alcance e faz perguntas incessantes. O pai responde a todas, mas a mãe tem pouca paciência para isso. Inicia-se uma luta entre mãe e filho, um desses embates em que os dois lados saem perdendo.




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Trechos de alguns capítulos do livro: (Clique e escolha os trechos que quer ler.)



Capítulo 1 - Fim Próximo


Vítima de uma doença incurável, Joman se prepara para morrer.


Capítulo 2 - Pregressos


Como o pai de Joman, um imigrante, conheceu sua mãe, como foi o casamento, qual foi o apelido que colocaram em seu pai.


Capítulo 4 - A Luta


Começa uma luta entre o ativo Joman e sua aflitiva mãe. A dinâmica do núcleo familiar.


Capítulo 5 - Reveses da Vida


Jomam começa a conviver com outros meninos e a freqüentar a escola, e sofre as primeiras decepções fora de casa. O sofrimento dos primeiros anos, a paixão oculta na pré-adolescência, as dificuldades em se ajustar, as angústias, as humilhações, os esforços desesperados para conseguir conviver com es outros e ser respeitado, assim como os perigos, são temas deste capítulo, o qual alcança até a idade dos dezoito anos.


Capítulo 6 - O Outro Mundo


A despeito dos temores, Joman escapa e vai viver em outra cidade onde ninguém o conhece. Influência de sua timidez nas escolhas, como por exemplo, do trabalho. As primeiras vitórias. A primeira namorada aos vinte e cinco anos. O casamento. os sofrimentos e prejuízos causados pela timidez.


Capítulo 7 - Tremor nas Mãos


Antes dos trinta anos surge uma doença. A luta desesperada dele e da esposa em busca da cura. A perda da esperança. Sua volta à terra natal para reviver de modo diferente as experiências passadas e realizar seu último anseio: ser livre!



Os últimos quatro capítulos – mais da metade do livro – são adrenalina pura.




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