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A História de uma Pessoa Tímida



Como o pai de Joman, um imigrante, conheceu sua mãe, como foi o casamento, qual foi o apelido que colocaram em seu pai.


Capítulo 2 - Pregressos


(Informação: Três ponto (...) entre parágrafos indicam que outros parágrafos foram retirados; no começo ou final de parágrafo indicam que textos foram retirados daquele parágrafo.)



Português e Brasileira se Conhecem

Em 1930 desembarca no porto do Rio de Janeiro, aos 21 anos de idade, o robusto Manoel Pereira de Oliveira, nascido e criado no norte de Portugal. Vem, como a maioria dos patrícios seus, sem dinheiro e cheio de sonhos de enriquecimento no Brasil. Sem profissão definida, faz vários serviços para terceiros e, a duras penas, começa um pé-de-meia. A aspiração de um negócio próprio o leva em 1933 para o Vale do Rio Doce, que começa no Estado de Minas Gerais e termina no do Espírito Santo.

É uma época em que todo o vale está sendo desmatado. No lugar da exuberante mata atlântica surgem fazendas, onde predomina a pecuária bovina, e pequenos núcleos urbanos situados preferentemente ao longo da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Essa região atrai aventureiros, pessoas fortes e dispostas a lidar com um ambiente adverso.

O jovem português começa pelo Espírito Santo, como vendedor ambulante de objetos de uso doméstico e pessoal. As mercadorias vão em duas mulas e um burro muito mansos, que também transportam sua tralha e alimentos, enquanto ele monta outra mula. Percorre fazendas, sítios, acampamentos, casas de colonos e de trabalhadores rurais. É um trabalho duro, sob sol escaldante e temperaturas que superam os trinta graus centígrados na maior parte do ano, mas ele não se queixa. Economiza o que pode para aumentar o pé-de-meia e realizar dois sonhos mais imediatos: estabelecer um comércio em alguma localidade e encontrar uma jovem para se casar.

Em maio de 1934 acomoda-se num rancho, feito para tropeiros e viajantes, num povoado de nome Cachoeirinha, no médio-vale, em Minas Gerais. Trata-se, como tantos outros instalados em cidades, povoados e beiras de estradas, de uma construção que tem piso de terra batida, paredes de alvenaria em três lados e esteios de madeira para sustentar o telhado. Como ele não tem tempo a perder, prepara-se para iniciar uma nova jornada já no dia seguinte, mais uma viagem nessa sua vida sem descanso e sem conforto, e de noites solitárias.

Vai, pela primeira vez, seguir por uma estrada de rodagem com sessenta quilômetros de extensão, recém-aberta, que liga o povoado a uma cidade de nome Itanhomi, situada a sudoeste, passando por outro povoado de nome Cafezinho. O tempo de viagem é imprevisível; pode chegar a um mês, dependendo do número de paradas que fizer para mostrar as mercadorias. No final da tarde, prepara o jantar e o alimento que consumirá durante o dia seguinte, como sempre faz. Depois do jantar deita-se na esteira de palha e dorme.

...

No transcorrer da exposição, Manoel observa a beleza da jovem. "É uma donzela em flor", diz para si mesmo. "Como pode haver uma jóia assim num lugar desse?" Ela tem a pele clara, diferente das outras que viu, indicando que não se expõe muito ao sol. O longo cabelo preto, amarrado com descuido junto à nuca, esparrama-se depois pelas costas em ondas suaves. Os olhos são castanhos e meigos. Os dentes, brancos, aparecem em tímidos e ocasionais sorrisos. O vestido é simples. Calça chinelos que, de vez em quando, são tirados, e sobre eles pousa os pés delicados. Fala pouco, e a voz é suave. Aos olhos de Manoel, tudo nela é belo, é recato. A certa altura, quando estão todos bem descontraídos, comenta, delicadamente, voltado para a jovem:

– Tu me lembras as belas rapariguinhas de Portugal.

A jovem arregala os olhos e a seguir levanta-se e corre para o interior da casa. A mãe, acompanhando a filha, também sai rapidamente. O pai levanta-se com semblante fechado, vai até a porta de entrada, puxa, forçado, um escarro da garganta e fica olhando ao longe. Assustado, preso à cadeira, Manoel não entende o que se passa, e nem lhe ocorre nada para dizer. Decorridos alguns segundos, Pedro vira-se um pouco de lado, na direção do vendedor ambulante e diz, com voz aborrecida, sem olhar para ele: – O senhor falou mal da minha fia – e vira-se de novo para fora.

– Eu?!... Não estou a compreender...

– Chamou ela de rapariga – replica o homem, sem se virar.

– Ora pois... rapariga é qualquer donzela! – Após um momento de reflexão acrescenta: – Pelo menos na minha terra...

– Pra nóis aqui, é muié que num presta...

O jovem português assusta-se e sente medo. Ele sabe que os habitantes do vale são rudes, afeitos ao trabalho pesado, pouco instruídos e sensíveis aos maus-tratos. Muitas vezes matam, em resposta a uma ofensa banal. Por isso se apressa em responder:

...

Manoel levanta-se e diz, de modo pausado e solene, curvando inicialmente a cabeça na direção da mulher: – A senhora, dona Risoleta Santos da Cruz, e tu – curva agora a cabeça na outra direção –, donzela Maria das Dores Santos da Cruz, queiram me desculpar. Eu não pretendia ofender, eu não sabia...

– Disculpado – diz a mãe.

– Disculpado – faz coro a filha, que em seguida se junta à mãe.

A família, sob certo constrangimento, retoma o exame das mercadorias, mas não tarda e o ambiente está de novo descontraído. O casal compra alguns objetos.

Para seguir viagem completamente tranqüilo e seguro de que não está deixando nenhum rastro de aborrecimento, Manoel conta alguns casos de sua terra natal, que os três ouvem com interesse. Quando, por fim, começa a guardar as mercadorias, Pedro lhe faz um convite.

–Já tá de tarde; o senhor pode posar aqui com nóis, se quiser.

–Aceito com muito prazer, ora pois! – responde alegremente.

Manoel tem razões para ficar feliz com o convite. Em primeiro lugar, porque isso indica uma deferência. Não é praxe fazer esse tipo de convite a estranhos; o habitual é o viajante procurar o rancho de beira de estrada mais próximo. Em segundo lugar, porque passará a noite com conforto e, principalmente, porque poderá apreciar mais a donzela em flor. ...

Durante o jantar na cozinha, Manoel volta a ver a jovem. Os dois se olham de soslaio. "Como é bonita esta rapariga...", repete para si mesmo várias vezes. Depois se reúnem na sala e conversam animadamente.

Três filhos do casal, que moram no sítio em casas mais afastadas, chegam com mulheres e filhos, movimentando ainda mais o ambiente.

...

– Essa faquinha aí, o senhor comprou adonde? – entra um dos filhos, apontando para o lado direito da cintura dele.

– Esta eu trouxe de minha terra – responde com certo entusiasmo. E, para satisfazer mais a curiosidade, desembainha-a e mostra-lhes. É uma faca de cabo branco, de chifre, com desenhos feitos em metal amarelo cravado, e uma lâmina de pouco mais de dez centímetros. – Cuidado para não te cortares – adverte, ao entregá-la. – Mantenhoa sempre amolada. Pode-se até fazer a barba com ela – completa, vangloriando-se.

Passam a faquinha de mão em mão, apreciam sua beleza e seu fio, que realmente lembra o da navalha.

A conversa prossegue, e ele, com discrição, continua a observar a jovem. Tem certeza de que ela lhe retribui os olhares. Sente vontade de lhe dirigir a palavra, mas é contido pelo receio de que se sintam ofendidos.

– Das Dor, arruma o quarto pro sô Manoel dormir – ordena Risoleta a certa altura. A moça obedece e vai para dentro da casa.

Os três filhos e suas famílias se despedem. Pouco depois, das Dores chega e informa, com aquela sua voz meiga: – Sô Manoel, o quarto tá rumado.

– Podes me mostrar? – a jovem balança a cabeça, e ele a segue.

– É aqui – diz ela mostrando o quarto. – Quer lavar os pé?

– Estava eu a pensar nisso...

– Intonces, o senhor espera um cadiquinho.

Manoel está acostumado a ouvir as pessoas dessas bandas falar errado, coisa que, aliás, o diverte, mas os erros cometidos por das Dores o enchem de encantamento. "Cadiquinho...", "Lavar os pé...", "Tá rumado...", rememora ele, achando graça, enquanto espera. A jovem retorna com uma bacia e coloca-a junto à cama onde ele está sentado, sai e volta em seguida com duas jarras. O vendedor ambulante já está descalço, com os pés no assoalho de madeira, ao lado da bacia, e as barras das calças levantadas até os joelhos. Das Dores curva o corpo e despeja a água quente de uma das jarras; depois, ajoelha-se e começa a despejar lentamente a água fria da outra, enquanto passa a mão para controlar a temperatura. – Acho que tá bom – ela diz, depois de alguns segundos. – Óia!

Ele se curva e, ao passar a mão na água, toca de leve no dorso da mão de das Dores, que ficou apoiada no fundo da bacia. A jovem encolhe o corpo, como se tivesse tomado um choque, mas não retira a mão. Ele continua o movimento em círculo como que sentindo a temperatura da água, mas na verdade roça, prazerosamente, o dorso da mão da jovem. Ela, por sua vez, a vira, instintivamente, de modo que, por uns instantes, as duas palmas se roçam. O barulho dos passos de Pedro faz com que a jovem ergase rapidamente e saia do quarto, levando as duas jarras.

...

Alegrias e Pressões

Manoel continua sua viagem e leva consigo a imagem daquela jovem. Imagem que inspira fantasias de um namoro delicado e de um casamento feliz. "Cadiquinho...", "Tá rumado...", rememora, com ternura e saudade, nos momentos de solidão. E indaga a si mesmo se Deus a reservou para ele. Das Dores é também um estímulo para reativar o sonho de estabelecer-se em algum lugar. "É tudo que quero: um comércio e uma mulher para amar." Entretanto, vez por outra, um leve temor ronda-lhe o espírito: "A família aceita um estrangeiro?" Evita, tanto quanto pode, pensar nessa dúvida, pois tem muitas lembranças boas para ocupar a mente, não havendo razões para dar asas a pensamentos negativos. Em menos de quarenta dias, numa quarta-feira, ele está de volta, trazido pelo anseio de revê-la.

...

"Oh, lá, lá! Já não é apenas uma rapariguinha!", admira-se Manoel de modo tal que os pensamentos saltam pelos olhos. Das Dores, sentada numa cadeira, perto da mesa, mantém o tronco ereto e a cabeça erguida. Traja um vestido simples, mas com aspecto de novo, e calça sapatos. Os olhos exibem o brilho da alegria contida. Os cabelos, tão brilhantes quanto os olhos, estão presos por uma estreita fita de seda branca em cada lado da cabeça e se esparramam pelos dois lados do pescoço, cobrindo os ombros e parte dos seios. Ela abre um leve e tímido sorriso quando o jovem português se aproxima.

– Como vais, Maria das Dores? – Ele sente o incitante cheiro de banho, misturado ao perfume do óleo de cabelo que lhe dera de presente, quando lhe estende a mão.

– Eu cá vou bem. E o senhor, sô Manoel?

– Bem, muito bem – responde com indisfarçável alegria. – Parece que cresceste!

– Ela é grande pra idade – comenta Risoleta, orgulhosa. – Tem só 16 ano. Senta, sô Manoel – completa, oferecendo-lhe uma cadeira.

– Dezesseis?! Ora pois! parece ter mais... – volta ele, procurando ser gentil, enquanto se assenta a pouco mais de um metro de distância da jovem.

– Já é moça casadoira – entra Pedro. O jovem toma o comentário como uma insinuação e o acha ótimo.

...

... Manoel interrompe o caso que está contando, levanta-se e, quando Pedro, ainda de pé, começa a se servir, diz ao casal, com voz firme e solene, o que sonhou durante todos os dias, desde que esteve ali. – Eu queria pedir licença ao senhor, seu Pedro Horácio da Cruz, e à senhora, dona Risoleta Santos da Cruz, para namorar a das Dores.

Aparentemente surpreso com o pedido, Pedro se senta numa cadeira próxima da mesa, ao lado da mulher, sorve um gole de café, põe a caneca sobre a mesa, tira um lenço do bolso e enxuga o rosto. Mais um gole de café e repõe a caneca sobre a mesa; olha para fora pela janela lateral, leva a mão ao rosto e faz aquele movimento repetitivo de escorrer as pontas dos dedos sobre a barba rala, dando aparência de dúvida, tudo acompanhado com grande expectativa pelo vendedor ambulante. Por fim, vira-se para a filha. – Ocê quer? – A jovem sacode a cabeça. Então ele se volta para Manoel: – Vai dar muito gosto pra nóis – fala também em nome da esposa, como é hábito na região.

Risoleta faz um discreto sorriso, o suficiente para mostrar que está feliz.

Os olhos do vendedor ambulante brilham, acompanhando um sorriso de alegria, justificável porque nos seus sonhos havia espaço – pequeno, é verdade – para uma negativa. O caminho está aberto para a mudança de vida que ele almeja.

Os dois jovens namorados têm outras oportunidades de ficar a sós na sala e na cozinha, mas não se tocam. Manoel espera ansioso a hora de deitar-se, a hora de lavar os pés. À noite repete-se o encontro da família inteira, e a novidade já é conhecida. Pedro anuncia que vai promover uma dança no sábado, ali na sua casa. Nem precisa dizer o motivo – estão todos contentes com o casamento que das Dores fará.

...

Há uma grande expectativa em relação à chegada de das Dores. Os olhares se voltam de tempos em tempos para a porta de acesso ao interior, onde se dará o seu aparecimento. Quando ela surge, acompanhada pela mãe, os olhares de expectativa se transformam em olhares de admiração. O vendedor ambulante empina o corpo. "É uma princesa!", afirma a si mesmo.

A jovem traja um vestido cor-de-rosa, adornado por uma fita de seda vermelha, larga, brilhante, amarrada à cintura com um gracioso laço na frente, com as pontas caindo até as coxas. O cabelo foi dividido em duas longas tranças que terminam com fitinhas, também de seda vermelha, abaixo dos seios. Presa à cabeça, do lado direito, uma pequena flor, também vermelha, completa a harmonia do conjunto. Calça um sapato novo e se dirige, devagar, para onde estão as cunhadas.

O sanfoneiro, sentado numa cadeira a um canto da sala, começa a tocar. Os que estão do lado de fora se aglutinam junto à porta de entrada e às duas janelas da frente e das laterais, mas ninguém inicia a dança. Pedro cutuca Manoel e sussurra-lhe ao pé do ouvido: – Começa! – Então ele percebe que lhe cabe a honra de iniciar o festejo. Caminha em direção a das Dores em passos solenes e, quando chega, faz uma mesura: estende-lhe a mão direita, curva a cabeça e ao mesmo tempo estende a perna direita para trás, apoiando-a sobre o bico da botina; recolhe-a rapidamente e repete o movimento com a perna esquerda e a cabeça. A jovem se aproxima, pousa sua mão sobre a dele, e os dois vão para o centro da sala. As pessoas, em volta, admiram o requinte.

E ambos, com o coração palpitando, começam a dançar. "Não estou a acreditar! pois, pois, pois, pois! – admira-se logo após os primeiros passos –, ela é leve como uma pluma!" ...

...

No domingo o jovem vendedor ambulante acorda decidido a acelerar as coisas. Espera ansioso o pai de das Dores terminar a ordenha de algumas vacas e fala-lhe, ali mesmo, junto à entrada do curral. – Senhor Pedro – começa, ao mesmo tempo em que faz a gentileza de tomar-lhe e segurar um dos baldes de leite –, estou a pensar em casar-me com Maria das Dores e quero saber se concordas.

– Nóis faiz gosto, sô Manoel. – Sorri em seguida.

– Estou a pensar num casamento rápido, sem delongas.

– Pra quando, sô Manoel?

– Um mês, dois meses no máximo.

– E pensa em morar adonde? O senhor é andejo, veve viajano...

– Penso em estabelecer-me em Cachoeirinha; tenho umas economias.

Manoel sabe que o povoado tem muito futuro. Situado junto ao rio Doce, é ponto de parada dos trens da Estrada de Ferro Vitória a Minas. A recente abertura de estradas de rodagem ligando-o a alguns municípios produtores de cereais, especialmente ao norte, do outro lado do rio, contribui para o começo de sua transformação num pólo mercantil, já que a estrada de ferro facilita a entrada e a saída de mercadorias. É o lugar ideal para realizar o outro sonho – o de ficar rico.

– O senhor podia morar aqui mesmo no sítio, pra famia ficar toda junta. Com as suas inconomia pode comprar um gado separado, só seu, e trabaiá com nóis na roça.

– Eu não tenho experiência com gado e nem com roça, ora pois, senhor Pedro.

– Isso é coisa face, que aprende logo.

O jovem português fica em silêncio. Acha melhor nem discutir a questão. Para uma pessoa como ele, que já andou meio mundo, acostumado a uma vida solitária, é até impossível ver problema em morar tão perto. Por isso, dá uma resposta evasiva: – Não é bem o que eu estava a pensar, mas vou conversar com das Dores. – E muda rápido de assunto. – Aqui as pessoas não têm costume de rezar?

– De veiz em quando. Junta o povo e reza numa casa. Hoje mesmo, de noite, vai ter.

– Ah, é mesmo? E onde será? Gostaria de ir.

– Vai ser aqui perto.

–Eu sou católico apostólico romano praticante; rezo toda noite. – Isso é bão, comenta Pedro. – E sou também oblato beneditino – completa, sem notar a compreensível expressão de estranheza de Pedro, posto tratar-se da filiação de um leigo à Ordem dos Beneditinos e de sua participação especial em certas cerimônias.

À tarde, fala a sós com das Dores. Ela já sabe que seu pai concordou com o casamento.

– E tu, queres?

– Quero. Só num queria se mudar daqui.

– Numa cidade ou num povoado como Cachoeirinha nós temos mais futuro, ora pois, das Dores!

– A mãe morre se eu se mudar; ela falou.

– Mas Cachoeirinha fica ali! São apenas quinze quilômetros!...

– Nóis num gosta de rua, Manoel.

Ele dá um sorriso, balançando a cabeça como sinal de incredulidade. Achava que ia ter o apoio da noiva e, mais do que isso, o seu empenho, e no entanto, ouve isto!

A notícia de que das Dores pode sair do sítio após o casamento causa grande impacto na família. Ela, além de ser a única filha, é bem mais nova do que os três irmãos, cujas idades variam de 23 a 27 anos. Estas particularidades contribuíram para que se tornasse o centro dos cuidados e afeições de todos, especialmente de Cândido, o irmão mais velho. Embora não tenham feito um acordo formal, estão todos imbuídos do propósito de demover Manoel da idéia de morar em outro lugar. Esperam o encontro da noite para discutir o assunto.

...

Manoel se retira e vai ao quarto. Pouco depois surge na sala vestindo, sobre a roupa normal, uma capa de cor preta, sem mangas, que vai até os joelhos. Todos o olham com surpresa.

– Que ropa é essa, Manoel?... – indaga das Dores, exprimindo a perplexidade deles.

No centro da sala, em postura altiva, orgulhoso, ele responde: – É uma opa, ora pois!

– Opa?... – retorna ela.

– É. O-p-a, opa, uma vestimenta da Igreja, para leigos, ora pois!

Eles não entendem, mas não fazem outras perguntas.

Quando chegam à casa onde haverá a reza, as pessoas ficam também surpresas. – Chama opa – cochicha das Dores para os curiosos.

Durante todo o ato religioso ele é o centro das atenções. Os presentes rezam de forma mecânica, pois estão mais interessados em ouvir seu sotaque, ou apreciar seu fervor, ou ver sua imagem com a opa através de olhares furtivos, ou por uma combinação dessas novidades.

Quando retornam, a família envolve Manoel num processo de sedução para que se estabeleça no sítio.

...

Num outro dia, Antônio, o mais novo, comenta de passagem: – Nóis num dexa a das Dor sair daqui não.

Este comentário alarma Manoel. O casamento corre risco, e viver ao lado de das Dores, agora, está acima de qualquer coisa. Percebe que está diante não de uma simples resistência, mas de forte oposição. Acaba sucumbindo. "Não se pode querer tudo de uma vez", diz aos seus botões, buscando consolo, e suspende por algum tempo parte dos planos que acalenta. Comunica à noiva o que decidiu:

– Vou viajar para vender as mercadorias que restam; depois volto e nos casamos. Vamos viver aqui no sítio. Até quando, não sei.

A família fica aliviada e feliz.


Casamento

...

 

Após trocarem a roupa do casamento, Manoel e das Dores saem da casa onde vão morar, aquela situada próxima à de Pedro, e se juntam à pequena multidão postada diante das casas para participar dos festejos.

Cândido se aproxima puxando o cavalo branco pela rédea.– Aqui o seu cavalo – diz, sorrindo. Manoel assusta-se.

– Não imaginei que tu estavas a falar sério.

Ainda sorrindo, Cândido completa: – Comprei esta sela e o coxenil.

– Que beleza! Que beleza!

O cavalo é lindo, mas com aquele enorme coxinilho vermelho, de pele de carneiro, sobre a sela nova, forma um conjunto maravilhoso, admirado pelos presentes. Manoel não resiste, monta-o e dá uma volta. Observa a cabeça majestosa, sempre erguida, a crina alva, comprida e lisa, balançando com graça, qual uma onda, pelo longo pescoço. Sente a marcha macia e observa a pronta resposta ao mínimo contato da espora.

– Muito obrigado, Cândido, muito obrigado! – agradece efusivamente ao apear. – Além de belo, é ótimo!

A noite de núpcias completa a realização dos dois. Terrivelmente apaixonados, entregam-se de corpo e alma. Os desejos, insaciáveis, não lhes permitem dormir. De madrugada, à meia-luz do lampião, das Dores levanta-se. Sai do quarto e daí a pouco reaparece à porta e pára.

Manoel fica atordoado com a imagem. Nos cabelos soltos e desdenhados, sem fita e sem flor, nos olhos serenos de ânsias atendidas, no corpo envolto pela camisola branca, da menina-moça que acaba de se tornar mulher, a natureza exibe todo o seu brilho. Ele se levanta devagar, sem desviar dela os olhos, vai ao seu encontro, olha-a enlevado por alguns segundos e a reconduz carinhosamente para a cama. Deita-a com cuidado e, sob o lampião, os dois se olham por um longo tempo. Não dizem nada, e nem precisam dizer, mesmo porque, em momentos assim, as palavras são vazias, são apenas sons que se perdem no espaço. Os sentimentos, em sua essência, especialmente estes, de pura paixão, são inexprimíveis... indescritíveis... No máximo, apenas tangenciando o que se passa, pode-se dizer que, nesse estado, tanto faz, para os dois, se a Terra gira em torno do Sol ou vice-versa, se a vida tem fim ou é eterna, se serão ricos ou pobres. – Estou a sonhar ou é verdade? – murmura ele, com voz terna, depois de muito tempo contemplando sua tão querida esposa. Das Dores sorri docemente. Em seguida eles se amam de novo, desta feita com delicadeza, para que as almas possam se juntar.

 

O Apelido

 

Casamento rápido é comum na região, e a vida dos recém-casados é previsível; mas com uma pessoa de outra nacionalidade é uma incógnita, seja ali ou em qualquer lugar do mundo. Agora, na convivência, o português será conhecido tal como é.

Para ele, a esposa é uma dádiva de Deus. E como entende que casamento feliz é aquele em que a esposa é feliz, desdobra-se em atenções para com ela.

Resignado com a pedra que o destino colocou no caminho do outro sonho, o de ter o seu comércio num centro urbano, trata de facilitar a saída quando a pedra for removida. Compra gado e grava nele sua marca pessoal, constrói uma pocilga própria e toca a roça em conjunto com a família.

Esforça-se por aprender e integrar-se às atividades do sítio e aplica nelas toda a sua grande força física. Sua disposição para o trabalho é tal que enche de orgulho os sogros e cunhados.

Participa das rezas aos domingos, vestido sempre com a opa, e logo está liderando o pequeno grupo de praticantes. Julga que precisam de um templo e começa a visitar fazendeiros, sitiantes e trabalhadores rurais para se unirem na construção de uma igreja. Numa das fazendas, depois de expor suas idéias, ele passa por uma experiência que será um marco em sua vida e na sua descendência.

O fazendeiro, a certa altura, argumenta: – Sô Manoel da opa... – O português sorri com o tratamento. É a primeira vez que o ouve e fica de tal modo encantado que não presta atenção à pergunta que se segue. – Num tem tanta gente assim pra encher uma igreja, o senhor num acha?

"Manoel da opa... Manoel da opa...", repete mentalmente, com um meio sorriso e a cabeça erguida para o teto, apreciando a sonoridade, enquanto o fazendeiro, a esposa e os filhos aguardam a resposta. Como esta não vem, o fazendeiro insiste: – O senhor num acha?

...

O apelido "Manoel da opa" já se espalhara pela região sem que ele soubesse. Para algumas pessoas era um trato natural, uma forma de identificá-lo com precisão; para outras, que consideravam aquela vestimenta um espalhafato, tinha o tom de deboche.

O projeto da capela é mais bem aceito pela comunidade, e sua construção fica marcada para o início de 1935, quando acabarem as chuvas. O local escolhido é o sítio da família de Pedro Horácio da Cruz.

 




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Trechos de outros capítulos do livro: (Clique e escolha os trechos que quer ler.)


Capítulo 1 - Fim Próximo


Vítima de uma doença incurável, Joman se prepara para morrer.


Capítulo 3 - Paixão Atormentada


Nascimento de Joman, o caso extra-conjugal do seu pai, os dramas dentro da família.


Capítulo 4 - A Luta


Começa uma luta entre o ativo Joman e sua aflitiva mãe. A dinâmica do núcleo familiar.


Capítulo 5 - Reveses da Vida


Jomam começa a conviver com outros meninos e a freqüentar a escola, e sofre as primeiras decepções fora de casa. O sofrimento dos primeiros anos, a paixão oculta na pré-adolescência, as dificuldades em se ajustar, as angústias, as humilhações, os esforços desesperados para conseguir conviver com es outros e ser respeitado, assim como os perigos, são temas deste capítulo, o qual alcança até a idade dos dezoito anos.


Capítulo 6 - O Outro Mundo


A despeito dos temores, Joman escapa e vai viver em outra cidade onde ninguém o conhece. Influência de sua timidez nas escolhas, como por exemplo, do trabalho. As primeiras vitórias. A primeira namorada aos vinte e cinco anos. O casamento. os sofrimentos e prejuízos causados pela timidez.


Capítulo 7 - Tremor nas Mãos


Antes dos trinta anos surge uma doença. A luta desesperada dele e da esposa em busca da cura. A perda da esperança. Sua volta à terra natal para reviver de modo diferente as experiências passadas e realizar seu último anseio: ser livre!



Os últimos quatro capítulos – mais da metade do livro – são adrenalina pura.



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