| Psicoses, Timidez e Fobia Social
Ruy Miranda
Vencer a Timidez
e a Ansiedade Social
Um assunto intrigante é o aparecimento de Timidez em pessoas com certos tipos de psicoses. Intrigante porque, partindo-se da concepção clássica de que as psicoses representam uma ruptura no eu, e a dissociação do indivíduo e a realidade, os julgamentos desfavoráveis, supostamente feitos pelos outros, não deveriam alterar o comportamento dessas pessoas. Mas, em muitos tipos de psicoses, altera. Essa alteração apresenta certas peculiaridades. Antes de dizer como ela ocorre, vou relatar brevemente a minha experiência com psicóticos.
Minha experiência com psicóticos – No início da minha vida profissional, há cerca de quarenta e dois anos, optei por trabalhar apenas como psicoterapeuta. Entretanto, a necessidade de ganhar dinheiro para fazer frente às dificuldades do começo de uma vida profissional e o tempo normalmente longo para ser requisitado como psicoterapeuta, levaram-me a fazer um concurso para psiquiatra de um hospital público para psicóticos. Nesse trabalho assisti milhares, isto mesmo, milhares de pacientes psicóticos, quer no que chamávamos de quadro agudo ou de quadro crônico. A despeito das limitações do alcance da ação de um psiquiatra naquela época e o reduzido número de psicotrópicos então disponíveis, e que eram, ao lado dos eletrochoques, as únicas armas de que dispúnhamos, tive a oportunidade de acompanhar a evolução de centenas de pacientes, posto que, se eles fossem re-internados, deveriam ser assistidos pelo mesmo médico anterior e, com isto, acumulei vasta experiência no campo.
Por outro lado, na área de atividade particular, fui procurado por familiares de psicóticos que desejavam que eu tratasse alguns pacientes em meu consultório, em psicoterapia. Resisti no início, mesmo porque, naquela época, as únicas experiências bem sucedidas no tratamento psicoterápico com psicóticos foram feitas por John Rosen, e assim mesmo o que ele fazia era retirar os pacientes do quadro delirante, com psicoterapia, e depois os encaminhar para uma psicoterapia formal. Contudo, decorridos alguns anos, aceitei atender um paciente e logo incluí outros. A minha estratégia era atendê-los em psicoterapia, enquanto eles continuavam em controle medicamentoso, em regime ambulatorial, com seus psiquiatras.
Surpresas e decepções – A primeira coisa que me surpreendeu foi que esses pacientes, ao lado do acompanhamento com remédios, que faziam com seus psiquiatras, se engajavam na terapia, e iam com regularidade às sessões. Entretanto, de uma hora para outra paravam de ir, sem motivo aparente.
Um caso que me chocou foi o de um jovem, perto dos trinta anos, que aparentemente evoluía bem, e que desapareceu das sessões sem qualquer notícia, e reapareceu dias depois. Então ele me contou o que ocorrera. Seu psiquiatra, achando que ele havia melhorado muito dos sinais e sintomas psicóticos, suspendeu os medicamentos e, de um momento para outro, quando se encontrava na rua, foi tomado por intensas alucinações visuais e auditivas, e idéias delirantes de caráter persecutório, próprias de seu quadro anterior. Ele tentou resistir, mas o pânico foi tão grande que ele pegou um táxi e se dirigiu para o hospital psiquiátrico particular, em que estivera internado várias vezes com crises semelhantes. Lá, ao ser atendido pelo médico plantonista, pediu, pelo amor de Deus, que este o internasse, lhe desse medicamentos para atenuar seu sofrimento e, ao mesmo tempo, que comunicasse com seu psiquiatra. Cerca de dois meses depois de ter voltado às sessões comigo, ele abandonou a terapia e, em contato telefônico com a família, eu soube que ele se recusava a continuar, sem apresentar justificativas.
Nessa ocasião comecei a questionar esse tipo de trabalho que eu fazia no consultório, e decidi não mais atender pacientes psicóticos.
Novas tentativas – Muitos anos depois, cedi aos apelos de uma amiga para atender um parente seu com história de várias internações em hospitais psiquiátricos. Mas, decidi, também, que eu mesmo lhe daria medicação, paralelamente às sessões de psicoterapia. Enquanto o atendia uma vez pos semana no consultório, eu acompanhava a evolução dos sinais e sintomas psicóticos, e aumentava ou diminuía as doses dos medicamentos. O esquema funcionou. O paciente não abandonou a terapia, evoluiu muito, e passou a ter uma vida produtiva. É desnecessário, aqui, descrever com detalhes essa evolução. Depois disso, aceitei atender mais alguns casos de psicose e, hoje, acompanho um único cliente. Esta experiência em psicoterapia pode ser pequena no numero de casos, mas é grande na quantidade de observações, posto que tais atendimentos se estenderam ao longo de vários anos. E, entre essas observações, constatei que muitos comportamentos prévios, anteriores à psicose, como por exemplo, sinais e sintomas de Timidez, continuavam a acompanhar o indivíduo depois de ultrapassado o período de sinais e sintomas da psicose.
Não observei nada disso no trabalho como psiquiatra no tal hospital público, posto que o excessivo número de casos obrigava-me, e a todos os psiquiatras que lá trabalhavam, a fazer atendimentos rápidos.
Particularidades da Timidez – Observei, nessas experiências como psicoteraputa, que a Timidez prévia era, nessa nova etapa de vida, revestida de algumas particularidades, variável de um caso para outro. Por exemplo, o temor de ser julgado desfavoravelmente pelos outros pode ser acompanhado de idéias catastróficas. Algo assim: “Se as pessoas perceberem que eu estou na pior, vai desmoronar tudo. Então eu não vou”. Por desmoronar ele pode achar que a família vai ficar pobre, que o que está em pé vai cair, que ele não vai ter condições mais de conviver com os outros por causa da humilhação que sofrerá em tal ou qual contato. E, com isto, ele adia, por meses seguidos, uma decisão objetivamente simples. Assim, a Timidez, que antes da eclosão do quadro psicótico era parecida às dos outros, passava a ter esse caráter catastrófico.
Outra observação é o flagrante desacordo entre a Timidez, suas conseqüências e a realidade. Em um dos casos, o paciente, ao sair do quadro psicótico, entrou em um quadro obsessivo-compulsivo (John Rosen dizia que todos os pacientes seus, ao sair do quadro psicótico, entravam em um quadro obsessivo-compulsivo, quando eram então mandados para psicoterapia formal. Na minha experiência, só aconteceu com este paciente.). Se, de um lado, o quadro obsessivo-compulsivo impunha, de um momento para o outro, penosos e extravagantes rituais, mesmo em presença de pessoas, de outro lado, fora dessas crises, o paciente tinha vergonha, e se esquivava o quanto podia, de falar com os outros, especialmente desconhecidos, porque sempre achou que sua voz era feia. A força da compulsão era maior do que o sofrimento causado por um julgamento desfavorável a respeito da voz.
Fobia Social – Uma outra particularidade desses pacientes é que eles não desenvolveram quadros de fobia social. Mesmo naquelas situações de perspectivas de catástrofes, quando o paciente era, voluntária ou involuntariamente conduzido às situações ameaçadoras, uma vez dentro delas, não era tomado de ansiedade intensa e tampouco de pânico, e muitas vezes se sentia confortável e até interagia ativamente. Assim, na minha experiência, os pacientes psicóticos não desenvolvem o quadro clássico de Fobia Social, mas podem apresentar comportamentos típicos de uma Timidez prévia. O processo de Timidez dessas pessoas sofre algumas mudanças, e passa a apresentar certas diferenças em relação ao que era.
Portanto, pacientes psicóticos (exceto os que apresentam quadros de euforia) podem apresentar Timidez (após melhora do quadro psicótico), e seus componentes, dramáticos ou não, dependem, ao que parece, da Timidez prévia e do tipo de psicose desenvolvida.
Maio, 2006
OS MEDICAMENTOS SÓ
DEVEM SER USADOS SOB SUPERVISÃO DE UM MÉDICO ESPECIALISTA
PORQUE ALGUMAS ASSOCIAÇÕES SÃO TÓXICAS
E ATÉ MESMO LETAIS. DEPENDENDO DO PRINCÍPIO ATIVO,
PODE SER NECESSÁRIO ESPERAR VÁRIOS DIAS PARA COMEÇAR
COM OUTRO, OU PODE SER NECESSÁRIO ALGUMA RESTRIÇÃO
ALIMENTAR OU MESMO A RETIRADA DE MEDICAMENTOS USADOS PARA DIFERENTES
PROBLEMAS DE SAÚDE. O AUTOR DESTE ARTIGO NÃO
RECOMENDA NENHUM MEDICAMENTO EM PARTICULAR E NÃO REPRESENTA
INTERESSE DE QUALQUER PESSOA OU LABORATÓRIO FARMACÊUTICO.
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