Efeitos Colaterais
de Medicamentos na Fobia Social Resultantes de Diferenças Genéticas no Citocromo P450
- Parte 4
Ruy Miranda
Vencer a Timidez
e a Ansiedade Social
Os efeitos colaterais dos medicamentos usados na Fobia Social/Ansiedade
Social, assim como os usados em outros problemas de saúde,
dependem de vários fatores que se relacionam com as características
químicas da droga de um lado e com as características do
organismo de outro. E nesses últimos anos têm surgido seguidas
boas notícias sobre questões relacionadas com o organismo,
mais especificamente com o papel dos genes nesse campo.
Existe conexão entre algumas características genéticas e
o aparecimento de efeitos colaterais.
A compreensão do assunto envolve entender antes o
papel de certas substâncias biológicas no metabolismo
desses medicamentos.
Qualquer substância que chega ao organismo, inclusive
um medicamento, é submetida a uma série de reações
para se ajustar às características biológicas desse
organismo. Diz-se que essa substância é metabolizada.
As enzimas, ao promoverem essas reações, desempenham
papel fundamental nos organismos vivos.
A metabolização dos medicamentos usados na Fobia
Social, assim como vários outros medicamentos, e
também alimentos, se dá com a interferência de enzimas
conhecidas coletivamente como Citocromo P450. Trata-se
de uma família de proteínas.
As proteínas são substâncias biológicas constituídas pela
fusão de dezenas ou centenas ou milhares de outras moléculas
orgânicas pequenas conhecidas como aminoácidos. Cada proteína
tem uma função no organismo, seja no organismo de uma ameba
ou no de um elefante. As proteínas da família do Citocromo
P450 têm função enzimática no metabolização de várias substâncias.
Relação Enzimas e Efeitos Colaterais
Se uma enzima apresenta algum alteração na sua estrutura
química ela não vai desempenhar corretamente o seu papel.
Por exemplo, a alteração pode tornar as reações muito lentas.
Com isso o medicamento se acumula no organismo progressivamente,
uma vez que ele está sendo administrado a cada dia, e podem
aparecer efeitos colaterais. Outras vezes a alteração pode
causar uma total incapacidade do organismo em processar
o medicamento, situação em que o seu nível se eleva rapidamente
na corrente sanguínea e os efeitos colaterais podem ser
graves.
Hoje em dia é possível prever e evitar essas condições indesejáveis,
através de exames que indicam o perfil genético da pessoa
para várias enzimas. Perfil genético, neste caso,
é a descrição de certas características dos genes responsáveis
pela produção das enzimas que processam esses medicamentos.
Algumas enzimas da família do Citocromo
P450, localizadas em células do fígado, são
especializadas no processamento de várias substâncias, tais
como quase todos os medicamentos usados no tratamento da
Fobia Social (a maioria deles é usada também nas depressões
e nos transtornos obsessivo-compulsivos). Essas enzimas
são conhecidas pelas abreviações CYP2C9, CYP2C19 e CYP2D6.
E destas, a CYP2D6 é a que entra na metabolização de maior
número de medicamentos, pelo que é a mais importante neste
tema. A previsão de como uma enzima atuará, é feita através
do estudo de genes responsáveis pela sua síntese - portanto,
é uma avaliação indireta.
Síntese das Enzimas da Família Citocromo
Os genes atuam permanentemente na manutenção da vida e não apenas
na transmissão das características hereditárias do organismo. Eles
estão presentes nas cem trilhões de células de um organismo humano
adulto, atuando quando necessário. Em cada uma dessas células se
processam as reações para a manutenção da vida. Assim,
examinando-se o que acontece dentro de uma célula, pode-se
generalizar para as demais.
Uma célula é composta por várias estruturas mas, para os objetivos
deste artigo, ela será examinada como tendo duas estruturas: o
núcleo e o citoplasma. Dentro do núcleo estão os cromossomos e
dentro dos cromossomos o DNA, os genes, responsáveis pelo controle
do que ocorre no citoplasma. No citoplasma ocorrem reações física,
químicas, físico-químicas, responsáveis pela manutenção da vida
celular. Como os genes controlam o que se passa dentro do
citoplasma?
Esse controle é mais ou menos como se segue. Uma secção
do DNA (um gen), dentro do núcleo, serve de molde para a
produção de outra substância biológica chamada RNA (ácido
ribonucléico). Este, uma vez sintetizado, se difunde pela
membrana do núcleo e chega ao citoplasma. Em áreas específicas
do citoplasma, o RNA serve de molde para a produção de proteínas.
Assim, cada proteína tem um gen que lhe dá origem. Se existe
necessidade de uma certa enzima dentro da célula, o gen
vai produzir o RNA, este vai passar para o citoplasma e
aí promover a produção da enzima.
Alterações na Enzima e Características Genéticas
Se um gen apresenta alguma mudança na sua estrutura química,
ele vai gerar alterações na estrutura química da enzima.
Como há probabilidade de várias mudanças nos genes, pode
haver várias formas de uma mesma enzima. Isso é conhecido
como polimorfismo genético.
As alterações nos genes são conhecidas como mutações. Portanto,
mutação nada mais é do que alteração na estrutura química do gen.
Uma certa mutação pode apenas fazer com que a enzima CYP2D6, por
exemplo, processe mais devagar os anti-depressivos e outras
drogas.
Antidepressivos e Efeitos Colaterais
Modificações nos genes são uma das muitas razões pelas quais
um antidepressivo, ou qualquer outra droga, produz efeitos
colaterais. E, dependendo das condições presentes e de outras
características individuais, esses efeitos podem ser graves.
Mas isso pode ocorrer também com outras drogas que passam
pelo mesmo circuito metabólico.
Qualquer substância biológica ou não biológica, é potencialmente
capaz de produzir efeitos indesejáveis e até tóxicos e letais,
dependendo, entre outras coisas, de como ela é metabolizada.
Prever efeitos indesejáveis, evitá-los, otimizar um tratamento,
são anseios de qualquer médico.
Diferenças Genéticas de Origem Étnica
Estima-se que cerca de cinqüenta por cento dos medicamentos
consumidos pelos norte-americanos são ineficazes ou produzem
efeitos indesejáveis que variam de leves a sérios, em função
dessas características genéticas individuais. A maioria
parece ligada à atividade da enzima CYP2D6. Seguem-se alguns
dados relativos a esta enzima.
-- 10 % da população Caucasiana apresenta ação lenta dessa enzima.
Conseqüência: a dose a ser utilizada deverá ser a metade, ou
menos, do que a normal.
-- 7% da população Caucasiana apresenta uma ação ultra-rápida da
enzima. Conseqüência: procurar outras drogas que passem por
circuito metabólico diferente.
Várias pesquisas mostram, de forma consistente, grandes variações
genéticas entre grupos étnicos. Apresentam ação ultra-rápida da
enzima: 29% dos Etíopes, 1% dos Chineses e Japoneses, 4,8% dos
Indianos.
O que importa mesmo é o indivíduo, cada indivíduo - independente
de ele ser caucasiano ou etíope. Uma vez que o perfil genético
das enzimas da família Citocromo P450 pode contribuir para
a terapia individualizada e, por isso, otimizada, pode-se
prever que dentro de dois anos esses exames sejam rotineiros
nos Estados Unidos e, dentro de cinco anos, em todo o mundo.
É possível que antes de 2015 esse perfil, então englobando
um leque maior de circuitos metabólicos, faça parte, também,
do perfil metabólico dos recém-nascidos.
OS MEDICAMENTOS SÓ
DEVEM SER USADOS SOB SUPERVISÃO DE UM MÉDICO ESPECIALISTA
PORQUE ALGUMAS ASSOCIAÇÕES SÃO TÓXICAS
E ATÉ MESMO LETAIS. DEPENDENDO DO PRINCÍPIO ATIVO,
PODE SER NECESSÁRIO ESPERAR VÁRIOS DIAS PARA COMEÇAR
COM OUTRO, OU PODE SER NECESSÁRIO ALGUMA RESTRIÇÃO
ALIMENTAR OU MESMO A RETIRADA DE MEDICAMENTOS USADOS PARA DIFERENTES
PROBLEMAS DE SAÚDE. O AUTOR DESTE ARTIGO NÃO
RECOMENDA NENHUM MEDICAMENTO EM PARTICULAR E NÃO REPRESENTA
INTERESSE DE QUALQUER PESSOA OU LABORATÓRIO FARMACÊUTICO.
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