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autoconceito


Autoconceito e Auto-Atualização na Timidez e na Fobia Social
Ruy Miranda
Vencer a Timidez e a Ansiedade Social

 

Na dinâmica do autoconceito e da tendência à auto-atualização se acham, a meu ver, as causas primárias da Timidez e da Fobia Social. Parece que a Timidez resulta da introdução, no autoconceito, de elementos que obstruem a auto-atualização. Essa obstrução é danosa e vivenciada como desconforto por impedir que uma dada força, a da auto-atualização, se expanda. Vamos detalhar cada parte.

O que é o autoconceito – conjunto de valores e crenças, conscientes ou acessíveis à consciência, assim como atitudes e opiniões que o indivíduo tem de si mesmo, de si mesmo em inter-relação com o outro, com o mundo e com tudo que a mente pode alcançar.

Nos caso da Timidez e da Fobia Social, os conceitos devem ser examinados:
*em relação a si mesmo;
*de si mesmo em inter-relação com o outro.

Conceitos em relação a si mesmo - são predominantemente depreciativos. Exemplos: “não tenho assunto para conversar com os outros”, “não sou capaz de enfrentar a vida”, “sou feio(a)”, “sou mal informado(a)”, “não sou inteligente”, "eu me sinto deprotegido, tal como uma criança", “é horrível alguém me depreciar”, “não suporto a rejeição”, “não sou uma companhia agradável”, “não tenho presença de espírito”, “não sei contar piadas e nem casos interessantes”, “eu tenho mesmo ‘aquele’ problema”, "eu me sinto envergonhado por 'aquele' problema dos meus pais". Muitos desses conceitos – ou conceitos parecidos – se enquadram no que se chama baixa auto-estima.

Conceitos de si mesmo em inter-relação com o outro – o outro é percebido como mais forte, mais capaz e intrinsecamente hostil. Exemplos: “as pessoas estão de olho em mim, prontas a me criticar”, “todo mundo consegue namorado(a); só eu não”,"todo o mundo me vê como uma criança e aproveita de mim", “ninguém perde nada do que falo”, “podem até não falar, mas que pensam mal de mim, isso pensam”, “se eu reagir ele (ela) vai me pegar na traição”, “os outros estão sempre me julgando”, “vão me gozar, dependendo do que eu disser”, “se não rirem de mim pela frente, vão rir por trás”, “e se descobrirem ‘aquele’ problema?”, “se eu der algum fora, todo o mundo vai ficar sabendo”, “ninguém olha para mim com respeito”.

Experiências prévias – Para que esses conceitos estejam impregnados ao eu a pessoa terá passado por experiências que deixaram marcas.

Tendência à auto-atualização – Conceito criado por Kurt Goldstein em 1940, e posteriormente muito usado por Carl Rogers, e que significa uma força básica que impulsiona o indivíduo para frente. Essa força tem aspectos biológicos e psicológicos.

No campo psicológico existem forças que nos impulsionam em várias direções. Quando ocorre obstrução a alguma dessas forças, experimentamos desconforto.

Sentimentos vivenciados na Timidez – São sentimentos que a pessoa vivencia quando a situação põe em contato aspectos depreciativos do autoconceito e a ameaça que o outro representa. Exemplo: o indivíduo tem no autoconceito “eu não tenho assunto para conversar com os outros” e está diante de uma pessoa que julga estar pronta a criticá-lo – vai sentir desconforto na situação.

Esse desconforto é, na verdade, um conjunto de sentimentos e emoções, sendo comum destacar-se a sensação de ameaça, de perigo – isso se chama ansiedade.

A angústia destaca-se também aí, e em muitas situações precede um quadro de depressão reativa, isto é, precede a depressão em conseqüência de ter o problema.

A pessoa sente-se ameaçada nas situações sociais ou ante a perspectiva dessas situações. Ao sentir a ameaça, tem as reações fisiológicas que preparam o organismo para a fuga, para a sobrevivência. A fuga é o caminho natural porque, segundo o autoconceito que porta, o indivíduo não tem armas para lutar contra a ameaça.

Embora sem risco físico, o que o indivíduo percebe se acha nos mesmos níveis do risco físico e pode ser tão alto quanto o risco de perder a vida. Trata-se de ameaça de morte psicológica, de vir a deixar de existir como pessoa, de desagregar-se. Em nível de intensidade mais baixa, a impressão é de vir a sofrer grandes danos.

Instintivamente a pessoa evita as situações ameaçadoras, isto é, contatos com os outros. Quando está sozinha, ou com familiares ou com amigo(a) não existe ameaça. Uma conseqüência natural é a solidão.

Impasses – Em muitas situações a fuga é impossível. Em outras, a força interna, na forma de anseio, de desejo, de necessidade, é muito intensa.

O que fazer em tais impasses? As pessoas encontram maneiras adaptativas. Exemplo: desenvolvem comportamentos para evitar que a hostilidade que julgam existir nas pessoas venha à tona. Entre esses comportamentos são comuns mudanças no tom de voz, o uso de verbos auxiliares, o emprego de condicional, a gesticulação mais suave, a economia verbal. Com essas ações julgam controlar a hostilidade que pensam existir nos outros. Concretamente, passam a falar mais baixo, usam expressões do tipo “será que você pode?”, “talvez você pudesse”, “quem sabe você fazia isso?”, “eu gostaria se fosse possível”, desenvolvem maneirismos verbais, falam pouco, fazem rodeios antes de entrar no tema, e assim por diante.

A pessoa que não consegue essas adaptações - ou as vê como insuficientes -, sente de forma constante a ameaça de desagregar-se. Em outras palavras, vive em constante apreensão.

Fica evidente que a dinâmica do autoconceito e da auto-atualização desempenham um papel que pode ser considerado o núcleo da Timidez e da Fobia Social. O denominador comum aos dois quadros é a ansiedade. A diferença entre os dois é a intensidade da ansiedade. Dependendo dos conceitos que a pessoa integrou, a ansiedade será mais leve, o que é próprio da Timidez, ou mais forte, própria da Fobia Social. Em casos extremos, a pessoa entra em pânico, quando se vê em certas situações sociais.


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Atualizado em Novembro, 2006





 

 


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